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O Bom Combate
Por MARCOS DE CASTRO
Jornalista
erá que valeu a pena? Difícil responder. Na verdade, toda a luta armada aqui revivida foi um equívoco em si mesma. Só num momento de privação de sentidos, ou coisa assim, se poderia pensar na vitória de meia dúzia de grupos guerrilheiros, despreparados e divididos entre si, sobre a força regular de todo o país. Mas a certeza dos equívocos não invalida outra certeza: a de que se combatia o bom combate de que fala o apóstolo Paulo. Você lê o livro de Álvaro Caldas e sente isso. Pode ser que outros estejam contando essas coisas e dando-lhes um certo tom de ridículo. Não o Álvaro Caldas. Na luta morreu gente, gente foi castrada pelos torturadores assassinos. Então não foi brincadeira. Aquela altura, era a única contestação viva de um Brasil arrebentado por dentro. Equivocada, mas séria. O bom combate, o do Álvaro. Tão bom quanto este livro que gerou.
Livro de História do Brasil, não tenho dúvida em dizê-lo, e História da melhor qualidade, sem parti pris. Só fatos. Tanto que aí estão também o tenente-coronel Hélcio e o bravo tenente Elias, o outro lado da repressão. Nada de maniqueísmos. Nem todos eram assassinos e torturadores. Mas os assassinos e torturadores naquele momento venceram os Hélcios e os Elias. Tanto que o bravo tenente Elias foi expulso do Exército. Expulso por ser bom.
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Eu mesmo - se me permitem uma palavra pessoal - dividi o mundo entre bons e maus naquele momento. Lembra-me, muito claro, pensamento que me ocorreu no segundo andar das celas do DOI-CODI, no quartel da PE da Rua Barão de Mesquita. Impossível dormir, vou viver 100 anos e não esqueço: gritos desesperados cortavam o ventre escuro da noite, vindos das masmorras. Pensei: "De um lado, criaturas humanas. Do outro, oficiais do Exército".
Tinha fartos motivos para pensar assim naquela hora. Chegara pouco antes da masmorra. Na cela, encontrara admiráveis, sensíveis criaturas humanas como o Zé Duarte dos Santos, cujas palavras companheiras, testemunho cristão de um marxista sofrendo torturas ininterruptas havia 33 dias, vou viver mais 100 anos e também não esqueço (por onde anda o Zé Duarte, o bom Zé Duarte das expropriações, que um seqüestro de embaixador soltou pelo mundo e de quem nunca mais tive notícia?). Vai mais além, no entanto, este compêndio sobre um período da História do Brasil, que devia ser adotado nas escolas - e no futuro há de sê-lo, até porque é documento pioneiro. Eu, pelo menos, pela primeira vez vejo o racha da esquerda brasileira e todos os sub-rachas das organizações de guerrilha urbana descritos de maneira mais completa. História pura, narrada com a maior dignidade . Todos os erros reconhecidos, o que não é fácil.
Mas valeu a pena? E agora me aventuro a responder. Ora, se foi coisa séria, se foi o bom combate, é claro que valeu. Pois a vida humana é um choque permanente do qual se salva apenas a dignidade. E dignidade foi o que não faltou.