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Trinta Anos Esta Noite

Escrito para o jornal de cultura MUITO +

os anos 60 a esquerda tinha de sobra o que lhe cobram hoje: projetos políticos. Cada organização, e eram muitas, zelava pela pureza, integridade e supremacia do seu. O zelo era tanto que os dissidentes eram excomungados. Se as linhas (com eram chamados os programas) não a concluíram ao poder, havia no ar algo maior do que a tomada do poder. Maior do que o conflito entre a ditadura e a resistência armada.

Trinta anos depois, é possível enxergar que o cenário é preto e branco, e que passou pela década um vento de rebeldia, imaginação, ousadia e disposição para transgredir. Um vasto e inapreensível sentimento do mundo que o acúmulo de leituras, filmes e vivências pessoais transformaram em descobertas múltiplas. Foram muitos os caminhos, e a revolução foi um deles.

Coube à ideologia o doloroso papel de domar este ímpeto e enquadrá-lo. Esta senhora autoritária, stalinista e inimiga da dúvida acabou morrendo, foi enterrada e dela hoje ninguém sente falta. Extraordinário que tenha vindo anos depois e pela voz de um poeta, Cazuza, o grito de que precisava de uma para viver. Mas do que Cazuza sentia falta não era de uma ideologia, era desse feitiço que o vento da História espalhou pela década, tudo impregnando de uma magia transcendente, que pairava acima da realidade. Utopia foi um dos seus nomes.

Neste sentido, a década foi prodigiosamente pródiga, ofereceu caminhos variados, transgressões para todos os gostos. Foi como se vivêssemos a véspera do apocalipse ou estivéssemos pavimentando a estrada de volta ao paraíso. Que o socialismo e a alucinação das drogas permitiam antever. Estranho que tudo tenha sido vivido em preto e branco, como acabo de confirmar no filme que minha memória vai rodando, com o país sob uma ditadura militar e o mundo balançando na gangorra da guerra fria.

Ao rever recentemente 30 Anos Esta Noite, de Louis Malle, me dei conta de que não só o filme, mas toda a década de 60 está em preto e branco. A tragédia e o encanto que compõem seu dramático acervo não se ajustam a uma película ou uma narrativa a cores. Vi o filme pela primeira vez no cinema Paissandu, na época uma espécie de templo de cinéfilos que reunia toda a corte da esquerda no Rio, da festiva aos desbundados, passando pelos rebeldes com ou sem causa. No filme, um intelectual pequeno-burguês (o enquadramento era este), internado numa clínica para tratamento de alcoolismo, termina a longa jornada do dia de seu aniversário se matando em seu quarto com um tiro no peito.

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Me lembro que saímos do cinema, dois casais de namorados, acabrunhados e incomodados porque aquele tiro simbolizava uma desistência, uma confissão de fracasso diante dos desafios da vida. E nos confrontava como um ato radical de exercício do livre-arbítrio, do qual havíamos conscientemente abdicado, por força das circunstâncias. Fazia pouco, nossas vidas haviam sido doadas a uma causa maior, política e revolucionária.

Um verdadeiro ato cirúrgico, este de entrega à revolução, porque implicava o sacrifício de uma parte, a parte do poeta, da fantasia e da subjetividade, para entrar nos eixos que a realidade exigia. Significava deixar de ser um livre poeta para se tornar um quadro. Quem militou, passou pelos bancos do partidão e das organizações revolucionárias, sabe o significado de quadro. O militante abnegado, cumpridor de suas tarefas, que obedece ao centralismo. Mas esta era uma exigência da História, cuja marcha havia se acelerado, prenúncio de grandes transformações.

Naquele momento crucial de opção e engajamento, os jovens militantes que se preparavam para a luta armada tiveram sua sensibilidade capturada pelo marxismo-leninismo e não se satisfaziam mais apenas em explicar o mundo. Propunham-se a transformá-lo. A renúncia que se dispunham a fazer era dirigida ao outro, tinha como fim a justiça social e a igualdade entre os homens, com a colocação da classe operária no comando do processo histórico.

Ao terceiro chope, tomado naquelas mesas colocadas na calçada do bar ao lado do Paissandu, mudamos de assunto e passamos a discutir a realidade brasileira, o projeto de luta armada em gestação, nossas tarefas para o dia seguinte. Tudo em preto e branco. Como havia se passado no filme de Malle.

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Aqueles 30 anos da vida de um intelectual francês pequeno-burguês, numa Europa ainda dilacerada pelo pós-guerra, nos atraía por mostrar a fragilidade do homem. Uma atração contraditória, que era preciso negar. À sua angústia existencial tornava-se urgente, portanto, contrapor algo sólido que não demanchasse no ar. Algo como o determinismo histórico que vinha enrolado na couraça da ideologia. Ideologia e feitiço, que sussurrava uma mística sedutora. Com uma na cabeça e outro no coração acabamos por triturar as dúvidas e nos imbuímos de uma certeza cega e mortal. Queríamos tudo e tínhamos pressa.

Ao rever o filme agora percebi a existência desta analogia entre o solitário abismo do personagem e a premência do apocalipse que se apossou da geração 60. O furacão que passou pela década, com seu fascínio arrebatador e uma intensidade fulminante e brutal, talvez não passa ser resumido num dia. como se deu no filme, mas tem sido concentrado em 68, que se tornou o seu ano emblemático.

O excesso de luz e de cores jogado sobre 68 está fazendo dele um ano fatal, mimado e badalado, um espetáculo glamouroso que corre o risco de se tornar vazio e pausterizado, em que a mistura de tons retira a dramaticidade e a caracterização autêntica dos diversos atores participantes. Encobre a radicalidade e a profundidade de seus atos, impressos na combinação do claro-escuro.

Um espetáculo que na maioria das vezes em que é encenado e consumido perde substância e recebe o acréscimo de novas curiosidades. A mídia precisa de heróis e nem sempre os que ela escolhe são os verdadeiros. Trata-se de um jogo de máscaras porque parte dela, da mídia, apoiou o massacre contra a cidadania e os direitos civis, a tortura e os assassinatos praticados pela ditadura, e hoje quer limpar a sua imagem com a denúncia destes crimes que ajudou a praticar e a encobrir. Tem todo o direito. Mas se o que se pretende é restabelecer a verdade histórica, não é ética a omissão de seu papel.

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Nesta profusão de novas cores, os papéis freqüentemente são confundidos. O confronto inicial que terminou com um massacre desproporcional transforma-se numa guerra suja, termo criado para encobrir os crimes praticados pelos militares na Argentina e logo disseminado, porque iguala a todos, os que torturaram e os que foram torturados.

Omite que a tortura foi uma prática institucionalizada pela ditadura e não desmandos de meia dúzia de policiais e oficiais subalternos. Uma política de Estado, que se provou eficiente e eficaz. À custa de muitas vidas, de terríveis seqüelas, de centenas de mortos e desaparecidos. E ainda transgride o seu sentido fundamental, ao transformar em delatores os que falaram sob prolongados suplícios. Conforme notou o jornalista Elio Gasperi em texto recente, a voz emitida pelo torturado numa sessão de tortura tem um dono, o torturador que a arranca.

A ditadura durou mais de vinte anos. Parte do seu acervo de arbitrariedades e muitos de seus crimes, o que inclui a localização dos corpos dos desaparecidos, continuam trancados nos arquivos militares. Já os vencidos, muitos dos quais sobreviventes e estrangeiros hoje em seu próprio país, deixaram um legado que vai sendo reconstituído. Neste legado, não se pretendem inocentes nem vítimas, porque agiram com consciência e armados de uma concepção do mundo, ainda que autoritária, utópica e equivocada Que não deu certo, mas valeu a pena.

Trinta anos depois, a conhecida afirmação de Karl, o Marx dos espectros e da luta de classes, que ficou na História por criar boa parte desta confusão, pode ser recolocada sob a forma de pergunta: Tudo que é sólido desmancha mesmo no ar? Mesmo que esteja guardado em preto e branco em nossa memória?

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