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Balé da Utopia
Autor: Álvaro Caldas
Editora Objetiva
(021) 205.7824
136 páginas


Os Deserdadosda Utopia

Por IVO BARBIERI

m Balé da Utopia, coreografado a partir da Sagração da Primavera, de Stravinsky, passando pelo Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e terminando no samba Tudo o que Quiseres, de Monarco da Portela, Álvaro Caldas interroga o destino da geração que, nos anos da opressão, sacrificou sua juventude em nome de uma radical transformação no panorama de nossa história. Derrotada no campo da luta, esta geração viu-se despojada do sonho que tanto acalentara.

Três representantes dos deserdados da utopia (Cristiana, Santiago e o bailarino encapuzado), confinados numa estranha cabine e encurralados pelo impasse a que foram reduzidas suas vidas, trocam agressões e carícias, na busca ansiosa de saídas anunciadoras de novas possibilidades para aqueles que tiveram barradas todas as vias de acesso à cena de transformações coletivas.

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ão se imagine, porém, que esta situação dramática dê espaço a cenários de angústia ou desistência. A derrota política não carrega consigo a arrogância do desespero. Dilaceramentos tatuados na alma dos quixotes da pós-utopia, ao mesmo tempo que avivam a memória da paixão com que um dia estes se entregaram à obra de assentamento das funções de uma sociedade diferente, proíbem-lhes qualquer acumpliciamento com as falsificações da existência.

Para os cavaleiros refugiados no sonho, nenhum pesadelo serve de abrigo. Afeiçoados aos vôos de altitude, as asas que portam impedem, a eles como ao albatroz de Baudelaire, de caminhar em chão prosaico. A alternativa possível só pode ser vislumbrada no árduo confronto com as desconfortáveis asperezas de cada dia. E, para não desperdiçar nenhuma das pequenas oporturnidades embutidas nas dobras do cotidiano, é preciso estar atento aos mínimos sinais, que exigem interpretação rápida e arguta.

Ligados no desafio, os deserdados da utopia ficam permanentemente em guarda, e ainda esperam fertilizar o deserto. Muito sintomaticamente, é a arte que, investida no papel de renovadora das forças da vida, se ergue contra o vazio da racionalização e contra a cegueira do ativismo. Como o mito da primavera, que a criação artística sempre refaz, o Balé da Utopia recompõe o seu próprio ciclo, enquanto os feridos na véspera convalescem na aprendizagem de novas lições de vida e liberdade. A ação agora será coreografada, passo a passo, na perspectiva incerta de um horizonte que se furta ao olhar mais agudo.

IVO BARBIERI é Professor de Literatura da UERJ

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