Universo Online
Web Sites Pessoais



Balé da Utopia
Autor: Álvaro Caldas
Editora Objetiva
(021) 205.7824
136 páginas


Um momento de queda e de redescoberta da liberdade interior

Por IRINEU GUIMARÃES

lvaro Caldas apareceu no cenário editorial brasileiro em 1980, com Tirando o Capuz, considerado então pela crítica como um dos melhores relatos sobre a resistência e a tortura no Brasil. Engajado na guerrilha urbana contra a ditadura militar, Álvaro Caldas viveu na pele a grande exaltação e a suprema dor daqueles momentos heróicos. Tirando o Capuz foi um depoimento oportuno e definitivo. Mas não exaustivo.

Agora, quase um quarto de século depois, o recuo permite uma reflexão mais aprofundada. Os cadáveres dos companheiros sacrificados na repressão não permitem nenhum tipo de renegação. O sofrimento transforma em solidariedade perene o que poderia ter sido uma simples cumplicidade na ação. Mas há um tempo para revisões. E é de uma certa maneira a proposta central do Balé da Utopia: uma espécie de revisão geral.

Sobe ao topo da página

É claro que um ex-militante do nível de Álvaro Caldas sabe de muita coisa. Mas o escritor sabe também que muitas destas coisas não podem ser contadas de qualquer maneira. Por isso ele recorreu, para esta história difícil, a uma forma especial de narrativa, em que a realidade vem envolta em fantasias, em que a personagem esconde a pessoa real, ou seja, para voltar às origens em que a máscara esconde a face.

A constelação de conceitos que se pretende criticar neste firmamento de ontem é relativamente sóbria. Mas bastante densa: a solidez da certeza científica contra a especulação escolástica; o sentido da ação armada, o direito de contestar, em nome da sociedade que se vai construir, a (des)ordem constituída dos valores hipócritas da classe dominante; a integridade inabalável das lideranças, a legitimidade de um gênero especial de códigos e a exclusão de qualquer tipo de dúvida. Tamanho rigor exigia, como complemento existencial absolutamente indispensável, uma disciplina de fazer tremer o mais duro dos espartanos. Mas é exatamente aqui que o autor introduz, sem sair da ordem conceitual, um primeiro elemento de valor que só a maturidade permite avaliar melhor: um elemento subjetivo que Sartre denomina de fervor - la ferveur. Caldas prefere um termo mais vago, quase místico: é o encanto no sentido quase esotérico de feitiço Para aqueles meninos de 68, este encanto-feitiço tinha que ser a magia essencial responsável pela solidez das adesões. Só que se trata de um elemento não totalmente "científico".

Sobe ao topo da página

Os militantes desta Nova Ordem da Cavalaria Andante recebem, cada um deles, missões específicas que exigem renúncias duras. Para conduzir o leitor por esses labirintos do funcionamento da organização, o autor recorre à fantasias,o que lhe permite engastar fatos reais em disfarce, graças aos quais se conta a história sem trair o segredo. O "aparelho" de Ipanema transforma-se na cabine de um trem fantástico que roda em velocidade para um destino certo, do qual ninguém pode duvidar. A rota foi traçada por engenheiros cuja competência não admite contestação. MasŠ (e é aqui que nascem os enredos), os militantes encurralados nesta cabine-aparelho são submetidos a promiscuidades inevitáveis que os tempos de inatividade forçada vão tornar ainda mais complicadas. Aparecem então, em toda a intensidade de seu poder bruto, as grandes forças que movem as criaturas humanas: sexo-amizade, sangue-paixão, morte-vida, lealdade-traição, fidelidade-deserção.

Cristiana, a jovem militante que abandonou o lar burguês do Rio de Janeiro para seguir o ex-professor enrijecido em suas certezas, não consegue manter a fé nas razões que a levaram a renunciar à sua mocidade para viver sob ameaça permanente de prisão e morte. A "organização" despacha para a cabine um líder guerrilheiro baleado numa ação. Cristiana, que também sonhara com ações reais deste tipo, se vê transformada por uma determinação abstrata, numa simples enfermeira de um chefe cujo rosto permanece eternamente escondido por um capuz. E o herói baleado, apesar de encouraçado em suas certezas sem retorno, é também um artista, um bailarino apaixonado por Nijinsky, o deus do balé.

Sobe ao topo da página

Nesse ponto, a novela atinge níveis altos. A tensão permanente decorrente do encurralamento, das mortes, dos perigos de delação, e dos controles de rua cada vez mais freqüentes, tornam visível o fantasma do desabamento acelerado do movimento. São oportunidades para alguns momentos maiores. Ao mesmo tempo em que apagam a chama do encanto-feitiço, fazem irromper em cada um o desejo de recuperar o governo de seu destino pessoal, até então sacrificado em nome da História. Para o rebelde e obstinado Santiago, o professor, já não havia mais tempo.

Cristiana começa a desconfiar que o "teorema da perfeição" não é demonstrável. Ela se recorda com emoção do momento em que, anos antes, foi se despedir de uma amiga para entrar na clandestinidade. Susana (a amiga), após abraçá-la, ergueu um copo cheio de vinho e exclamou num brinde resignado: "Por algo será!" No final de seu desencanto, o líder baleado confia à sua ex-enfermeira que lhe falta convicção para erguer um copo vazio e repetir Por algo será! Um dos pesadelos deste misterioso guerrilheiro-bailarino é dominado por uma enorme planície vazia na qual um outdoor gigantesco exibe em letras garrafais a frase misteriosa: TODOS JOGAM MAL NO SENTIDO DE QUE NÃO SÃO PIORES. A interpretação da frase exprime uma frustração, porque os coloca novamente diante da dúvida e da incerteza, flutuando numa dilacerada sensação de irrealidade. "Mas era do encanto, diz o narrador, que começavam a sentir falta.

Humberto Eco costuma dizer que há uma volúpia na ação como existe uma volúpia nas certezas. A novela de Álvaro Caldas tenta continuar estas volúpias em suas dimensões exatas. "Mas está longe de ser um livro pessimista. No final da primeira parte de seu genial diário sobre a guerra civil espanholas, l'Espoir, André Malraux põe nos lábios de um voluntário aviador, seu colega, a seguinte observação dirigida a um revolucionário desesperado: "O Apocalipse quer tudo, e tudo imediatamente. A determinação obtém pouco, devagar e com muita dureza. O perigo é que todo homem traz dentro de si um desejo de Apocalipse. E, em combate, este desejo, após um período muito curto de tempo, significa derrota certa."

Balé da Utopia poderia ser uma renúncia ao Apocalipse. "Mas está longe de significar uma renúncia às utopias e às esperanças que fazem o renascimento do homem. Porque Álvaro Caldas, como tantos outros de sua geração, continua buscando novas saídas, interrogando-se a si mesmo e ao futuro, agora sem a "volúpia da certeza" de ontem. Este, no fundo, é o tema do seu romance, que expõe o tormento e as paixões vividos por seus personagens num momento de queda e de redescoberta da liberdade interior. O bailarino vislumbra na transgressão da arte a saída. Sintomático que eles não deixam jamais morrer la ferveur. A alegria desta certeza é a danação dos torturadores.

IRINEU GUIMARÃES é jornalista, ex-correspondente do Le Mondeno Brasil


Sobe ao topo da página