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Resenhas

Texto: Débora Guterman
Junho, 16, 1998

Águias, Burros e Borboletas
Roberto DaMatta e Elena Soárez
O jogo do bicho, quem diria, nasceu de uma boa intenção. No fim do século 19, um barão do Império teve a idéia de angariar fundos para a manutenção do Jardim Zoológico do Rio. Os visitantes recebiam um ingresso com a figura de um animal e, no fim do dia, um bicho era sorteado. Depois de cem anos, o jogo do bicho o jogo do bicho passou por diversas modificações e é, hoje, motivo de grandes divergências. Ao mesmo tempo que existe um grande número de apostadores, cria e corrupção e violência. Águias, Burros e Borboletas - Um Estudo Antropológico do Jogo do Bicho (Rocco, 200 páginas) faz tuna análise sociológica do que os autores classificam como "instituição" popular. Roberto DaMatta é professor de Antropologia na Universidade de Notre-Dame (EUA) e Elena Soárez é mestre em antropologia social pela UFRJ.

Diário da Navegação
Jonas Soares de Souza (org.)
Em 1769, o sargento-mor Teotônio Juzarte foi encarregado de chefiar uma expedição que partiu das margens do Rio Tietê, em Porto Feliz (na época Araritaguaba), rumo ao presídio de Iguatemi, no Rio Mato-Grossense, que leva o mesmo nome. Para registrar a viagem, foi incumbido de realizar um diário. O resultado é agora reeditado (foi publicado originalmenle em 1922). Em uma época em que a delimitação das terras portuguesas e espanholas ainda não estava muito bem definida, Juzarte percorre os Rios Tietê, Grande, Paraná e próprio Iguatemi, no intuito de descrevê-los. O curso, a grandeza e os riscos de cada rio estão relatados em seu Diário da Navegação (Editora da Unicamp, 122 páginas, R$ 12,50), que mostra a empreitada promovida pela Coroa Portuguesa de povoar a região do Rio Iguatemi para demarcas suas terras.

Bandeirantes - Os Comandos da Morte
Assis Brasil
O primeiro volume de uma série dos romances históricos de Assis Brasil, Bandeirantes, Os Comandos da Morte (Imago, 252 páginas, R$ 25,00), vai dos povos que antecederam Cabral à morte de Fernão Dias Pais. O escritor piauiense acompanha os bandeirantes paulistas, revelando detalhes curiosos e espantosos daquela quadra sanguinária da história nacional. Mas não é um puro relato histórico, é, sim, uma ficção. Os personagens, assim, não são os protagonistas da realidade, mas recriações de figuras como João Ramalho (e suas mulheres), Borba Gato, Garcia Pais, o famigerado Raposo Tavares, Fernão Dias Pais e seus capitães-de-ordem. Destaca ainda as mulheres que marcaram suas vidas: Maria Betim, Maria Leite e as princesas indígenas Bartira e Taniiá e o sábio Tibitiça, genro de João Ramalho.

Outro como Eu Só Daqui a Mil Anos
Ziraldo
O Menino Maluquinho mostra a emoção de vivenciar a virada do milênio. Para isso ele explica ao pequeno leitor como surgiu essa forma cristã de contar o tempo. E, é claro, conta vantagens de presenciar a entrada do século 21, afinal "nem Freud, nem Picasso, nem DaVinci, nem Newton (...) Chegaram, como você, tão pertinho do futuro". Maluquinho questiona como será o futuro, como as pessoas irão se comportar, se vestir e pensar." "Como será que serão os meninos e meninas do milênio que virá, depois que este mesmo milênio passar? Vão chorar se os magoarem? Vão sorrir se alegrarem? Vão sofrer se desprezados?", questiona-se o menino. Em Outro Como Eu Só Daqui a Mil Anos (Ed. Melhoramentos, 80 páginas), Ziraldo convoca todos os meninos e meninas maluquinhos a pensarem no mistério que é o futuro.

Orfeu de Carapinha
Elciene Azevedo
Um negro que convivia, em pleno século 19, com brancos - para lutar contra a escravidão - e foi escravo do próprio pai, um fidalgo português. Ele, Luiz Gama, passou a infância com a mãe africana em Salvador, de 1830 até ela ter de fugir da repressão senhorial e ele ser vendido pelo pai, ilegalmente, para cobrir dívidas de jogo e passar, em seguida, para as mãos de um fazendeiro do interior paulista, que revendia escravos. Mas, ao conquistar a simpatia de poderosos, Luiz Gama teve a oportunidade de alfabetizar-se e acabou provando que tinha direito, assim como os demais escravos, à liberdade. Assim é aquele poeta, republicano, abolicionista e escritor. Assim é Orfeu de Carapinha (Editora Unicamp, 280 páginas, R$ 14,50)

Carmen Miranda Foi a Hollywood
Ana Rita Mendonça
Depois de 44 anos de sua morte, a Pequena Notável continua rendendo assunto. Carmen Miranda Foi a Washington (Record, 209 páginas, R$ 25,00) busca um outro foco: a Carmen Miranda como veículo de propaganda do Estado Novo. Ana Rita Mendonça deixa de lado o glamour da cantora portuguesa e analisa seu papel dentro do contexto político getulista. O sucesso da cantora nos EUA era motivo de orgulho para os brasileiros, o que impulsionava a campanha nacionalista de Getúlio Vargas. Carmen Miranda foi a Washington e cantou para o presidente Franklin Roosevelt na Casa Branca, atuando como "embaixadora" do Brasil. As músicas cantadas por Carmen e seu figurino exaltavam um Brasil idealizado, festivo e sempre alegre. Como define a autora: "Carmen foi depositária dos sonhos de uma nação."

A autora escreveu para O Estado de S. Paulo.

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