Entrevista


paixonado das surpresas do cotidiano, cronista do mundo adulto, ele não esqueceu a criança que vive em sua alma. E conta suas experiências de homem feito, falando do amor, do bem e do mal, da solidão e da solidariedade, e também de seus ideiais. Mas sempre com aquela cândida simplicidade de quem tudo quer ver com os olhos da infância.
Por HERMES RODRIGUES NERY
Autor de novelas, romances, contos, peças teatrais, artigos e crônicas para jornais e revistas, o mineiro Fernando Sabino tornou-se um escritor eminentemente popular no Brasil, graças em primeira instância às suas colaborações na imprensa diária, que retratam episódios do cotidiano, num texto coloquial, bem-humorado, inventivo e agradável.
Neto de italiano por parte do pai, ele nasceu em Belo Horizonte em 1923 e já aos 13 anos escrevia os primeiros contos. Nos cinco anos posteriores produziu o suficiente para publicar um volume de contos: Os Grilos Não Cantam Mais. Data dessa época o início da amizade com Mário de Andrade, que lhe escreveu uma carta de incentivo, elogiando as qualidades do estilo do estreante. Na capital mineira, lecionou Português durante um ano e resolveu então transferir-se para o Rio, onde se tornou colaborador diário da imprensa.
A carreira literária de Sabino deslanchou sobre uma sólida base como cronista e ele soube pavimentar com essa experiência o caminho para o lançamento de uma novela (A Marca, 1944) e a elaboração de dois romances, reaproveitados mais tarde em um livro de grande êxito (O Encontro Marcado, 1956). Ele é hoje cronista maior nas letras brasileiras e alguns de seus textos se tornaram peças clássicas do gênero, que domina com elegância, como por exemplo em O Menino e o Espelho, O Homem Nu e A Companheira de Viagem.
Tanto na música, como no cinema, na pintura e na literatura, os artistas não conseguem estabelecer um diálogo com a sociedade contemporânea. A que se deve isto?
Não acho que seja assim. Pelo contrário, creio que nunca houve, como hoje em dia, tamanha integração do artisa com a sociedade de seu tempo. Principalmente através dos meios de divulgação audiovisual. O artista está sendo cooptado pela sociedade. O que é no mínimo de causar preocupação porque, passando a depender dela, ele dificilmente poderá continuar exercendo o papel de contestador do que ela tem de errado. Multiplicam-se os centros de cultura e de arte, aumenta a produção de matéria impressa, a comunicação se faz em proporções industriais, às vezes em detrimento da expressão artística. O mecenato se institucionaliza através de patrocínios e financiamentos, estimulados por uma discutível "política cultural" do governo, com incentivos e isenções fiscais. Em matéria de cultura, onde o governo se mete é bom sair de baixo. Até bancos e instituições financeiras estão provendo e patrocinando iniciativas de caráter cultural, o que em princípio pode ser bom, desde que não comprometa a qualidade nem a verdadeira natureza da atividade artística.
Há os que afirmam que a grande crise do nosso tempo é a do desejo. Ninguém deseja mais. Somos carentes de sentido humano e conteúdo poético. O que aconteceu com os ideais nos dias de hoje?
Tenho a impressão de que esta pergunta, como a primeira, é formulada do ângulo de sua geração, que é a do jovem de hoje. É possível, para os que se iniciam na afirmação de uma vocação profissional ou artística, que exista uma barreira impedindo sua admissão pela sociedade. Os que, como eu, já estão dando o seu recado, estes lutam exatamente para não ser absorvidos por ela. Quanto à falta de desejo, que você julga existir nos dias de hoje, talvez não passe de desejo irrealizado, frustração nascida de uma crise existencial inerente à própria juventude. Para a geração mais madura, a que pertenço, a crise é antes de mais nada política, econômica e social. E que tanto pode estar configurado na crise que o País enfrenta, como na da própria humanidade como um todo. Numa como noutra, se você aprofundar, encontrará suas origens numa carência de valores de ordem moral.
Todo escritor é um solitário. Busca a solidariedade nas idéias. O que é, na verdade, a solidão do artista?
Não é apenas o escritor: o ser humano nasce e morre sozinho. Os dois grandes momentos de nossa vida, o de nascer e o de morrer, dão a medida da nossa solidão. Saímos do ventre de nossa mãe para viver sozinhos e enfrentar a solidão do túmulo. Só que entre uma coisa e outra existe algo mais, como no verso de Elliot: "Birth, copulation and death". Em vez de "nascimento, cópula e morte", diria mais apropriadamente "nascimento, amor e morte". O amor é que interrompe o ciclo da solidão, pelo encontro com o outro, seja a mulher, o amigo ou simplesmente o nosso semelhante.
O amor como leit-motiv...
O ato criativo, seja ele qual for, é um ato de amor. É a vitória sobre a solidão. O escritor é um ser solitário, que passa a vida exorcizando os seus demônios, sozinho diante de uma máquina de escrevr, sem ter ao menos a distração de lidar com cores, como o pintor, ou com formas, como o escultor, ou com sons, como o músico. Só não está praticando um vício solitário porque, sendo um ato de amor, pressupõe a existência de outro, que vem a ser o leitor.
Numa sociedade em crise como a nossa, em que os valores se desmoronam, é possível encontrar a solidariedade autêntica, o amor na amizade, a amizade no amor?
A solidariedade a que você se refere começa pela simples relação de indivíduo para indivíduo, mas deve transcendê-la, se manifestando em termos mais abrangentes, de povo para povo. A partir da Segunda Guerra, os povos afroasiáticos descobriraram que prefaziam dois terços da humanidade, vivendo em condições subumanas, e exigiram uma participação proporcional nos organismos internacionais. A partir daí, milhões e milhões de hindus, árabes e negros, de quem o resto do mundo só tomava conhecimento quando apareciam como figurantes em filmes de aventuras, como Lanceiros da Índia, Beau Geste ou de Tarzan, passaram a reivindicar o seu direito a uma existência digna, como integrantes do mundo civilizado. Sem falar nos milhões de chineses, de quem ninguém tomava conhecimento e que resolveram buscar solução por conta própria. Ou nos latino-americanos, que até agora não resolveram nada. Sim, é possível encontrar no mundo de hoje solidariedade autêntica através da amizade e do amor, e exemplos isolados podem ser apontados ao redor. Mas é fundamental que se busque uma realização deste sentimento em termos coletivos, que beneficie as classes menos favorecidas o que, pelo menos no Brasil, só será possível com o aprimoramento político, com a retomada do desenvolvimento econômico e com o primado da justiça social. A solidariedade a que você se refere tem de ser exercida em termos comunitários, a partir das relações de vizinhança e das associações de bairro, a defesa dos interesses da cidade, do estado e da nação como um todo.
Quando se fala em cultura para o povo, ele reclama: nós queremos é comida. Hoje se justifica a crise cultural pela crise econômica. Os jovens não lêem porque o livro é caro e eles não têm tempo para ler. Fica ridículo falar que nem só de pão vive o homem, pois hoje o pão está faltando. Foi sempre assim? O que acontece, afinal?
Antes de responder, deixe que faça um esclarecimento que devia ter feito logo no princípio: uma pessoa como eu, pelo fato de ser um escritor, não é necessariamente capaz de responder a qualquer pergunta, esclarecer qualquer dúvida, apresentar solução para qualquer problema. Estas indagações que você está fazendo, eu próprio gostaria de lhe fazer Talvez como jovem você saiba respondê-las melhor do que eu. Não passo de um ficcionista que escreve sobre o que não sabe, justamente para ficar sabendo. A palavra escrita é o meu instrumento de conhecimento da vida e dos homens, pela recriação da verdade, através da imaginação, do sonho e da fantasia. Não tenho o menor compromisso com a realidade e o que busco é a verdade que ela esconde, quase sempre inatingível. Como fiz no último livro que publiquei, O Tabuleiro de Damas: o tabuleiro não é nem branco com quadrados pretos, nem preto com quadrados brancos, mas de outra cor, com quadrados pretos e brancos. Esta outra cor é que gostaria de descobrir. Quanto à sua condição econômica, política e social. Para que as manifestações de ordem cultural voltem a despertar interesse, é preciso que o povo tenha melhores condições de vida: tenha o que comer, onde habitar, e aquele mínimo de conforto sem o qual, segundo Santo Thomaz de Aquino, a virtude é impossível?
A fragmentação do saber nos tornou especialistas disso ou daquilo. Será que o jovem de hoje tem capacidade de discernimento das coisas e condições de aprender a realidade?
Quer um exemplo mais expressivo do que você próprio? Aos 23 anos, é sensível aos problemas de nosso tempo e reage de maneira criativa, instigado pela vocação literária: não duvido muito que você seja poeta. Como você, há muitos jovens hoje em dia que não estão na droga, nem na maconha, nem levando a vida dissipada que os mais velhos geralmente lhes atribuem. Haja vista, por exemplo, o vestibular, que antigamente era buscado por uns poucos e hoje por uma verdadeira legião. Eu poderia, a partir de meus filhos, que são sete, e seus colegas, enumerar outros exemplos de jovens que procuram participar das causas de interesse da comunidade e influir na vida pública. Não creio que estejam interessados apenas em festivais de rock. Só que o jovem, de modo geral, esbarra em dificuldades de ordem financeira, social e até afetiva que não tem recursos para resolver. Ao enfrentar a realidade, se sente como aprisionado numa camisa-de-força, não tem como dar vazão ao potencial criativo que traz dentro de si, sente que ninguém o compreende, o mundo inteiro é contra ele.
O mundo não estaria passando também por uma crise de ética?
É curioso que você me pergunte isso, pois é uma questão que vem me interessando muito ultimamente, essa da ética, do comportamento humano diante da opção entre o bem o o mal. Não é preciso conhecer a fundo Aristóteles para se posicionar em face dos princípios de ordem moral que distinguem um do outro. Mas a partir daí, o que sempre me interessou, do ângulo de quem lida com a imaginação para reconstruir a realidade, foram os princípios da estética, ou seja, da harmonia, da proporção e do equilíbrio. E isso desde muito jovem. Em qualquer atividade, da natação ao escotismo, dos estudos ao namoro, das brincadeiras às noites de farra, sempre fui perseguido por uma espécie de obsessão pela ordem estética, a unidade na variedade... Se vejo numa esquina um grupo conversando, tenho ímpetos de rearrumá-los: você que é mais alto, fica no meio, você passa para cá, aquele devia ficar ali... Desentorto quadros na parede e o alinhamento das casas na rua. E em música, estou sempre ouvindo aquele contrabaixo tocando mais alto do que devia ou aquele cantor desafinando. Nunca me desligo dessa preocupação estética quando estou lendo, ou assistindo a um filme. Não posso ir a teatro porque o meu impulso é o de gritar para o ator que se afaste um pouco, ou para aquele outro que fale mais devagar. Numa de suas cartas, Mário de Andrade já me advertia contra o que ele chamava de minha "ganância estética". Pois muito bem: ultimamente, para meu alívio diante desta deformação mental, descobri que há uma íntima relação entre a ética e a estética.
Em que sentido?
Cheguei à conclusão de que é impossível uma coisa ser boa e não ser bela. A recíproca, infelizmente, não é verdadeira, nem tudo que é belo é bom. Haja vista certas mulheres... Esta descoberta me trouxe um conforto extraordinário: então, o que sempre tentei através da estética era descobrir um caminho para atingir o bem. Quanto à crise de ética a que você se refere, já disse que para mim toda crise no fundo é de ordem moral.
O homem é fruto do meio, ou ele já traz em si forças que fazem superar as circunstâncias ambientais?
O meio pode influenciar o homem, mas ele se degrada ou se dignifica na medida em que corta ou conserva as amarras que o ligam à sua origem divina. A História está cheia de exemplos disso. A partir de Jesus Cristo... Um dos mais expressivos foi o dos campos de concentração, nos quais os nazistas submeteram os prisioneiros à mais abjeta degradação física e moral, em proporções animalescas, e no entanto houve aqueles que morreram ou mesmo sobreviveram, sem perder a dignidade, mesmo diante dos sofrimentos mais atrozes. E cada um que resistia moralmente redimia a humanidade inteira.
Você encontrou uma linguagem para expressar os desencontros, as ânsias e inquietações do homem, sempre com aquele humor que lhe é bem característico. Como podemos manter o humor diante de situações tão difíceis?
Você pode manter o humor se tiver uma visão condescendente com relação à fragilidde da natureza humana, a partir de sua própria fragilidade. Sabendo-se frágil, e portanto digno da misericórdia de Deus, pode estender essa misericórdia aos outros homens, colhendo uma lição de otimismo através do humor.
Qual os autores que mais marcaram a sua formação literária?
É uma pergunta difícil, pois a cada momento a gente tem um autor que nos infuencia inclusive ensinando como não se deve escrever. Mas, para resumir, diria que uma das maiores emoções que a literatura já me proporcionou foi a leitura de Dostoievski. No Brasil me limitaria a apontar dois escritores de minha admiração: Carlos Drummond de Andrade na poesia e Machado de Assis na prosa. Fora do Brasil, além de Dostoiévski, falaria em Henry James, Cervantes, Rabelais, Conrad... São tantos! Se a pergunta me fosse feita daqui a dez minutos, a resposta talvez fosse completamene diferente. Aliás, não somente em relação a escritores, mas a tudo mais. Posso daqui a pouco começar a falar coisas que vêm a ser um desmentido formal ao que falei no princípio desta entrevista, porque de lá para cá já evoluí e mudei a minha maneira de pensar. Embora fundamentalmente as minhas idéias sejam sempre as mesmas no jogo delas é que surgem outras o tempo todo, como um brinquedo infantil.
O poeta Mário Quintana me disse: "É preciso conservar a criança que se tem dentro de si". Que criança é essa?
Para conquistar a condição de adulto, o ser humano tem de trocar a inocência da criança pela experiência do homem feito. A partir desse momento, todo o seu empenho deve se voltar para desaprender o que aprendeu e recuperar a inocência perdida e tornar a olhar o mundo com os olhos lavados de pureza, de quem vê a vida pela primeira vez, como os da criança que ele foi. Como quem renasce a cada manhã. Os santos, os loucos, os mendigos, os perseguidos, os humilhados e ofendidos chegam lá mais depressa.
O artista no fundo é isso...
O artista, mesmo empenhando apenas beleza, pode estar contestando a ordem iníqua que a sociedade nos impõe, quando não aceita as regras do jogo, que são as da hipocrisia, da falsidade, da deformação do pensamento, do desrespeito aos direitos humanos. Este é o seu caminho para reencontrar a criança dentro de si. E não tenho dúvida de que vale a pena o esforço, mesmo que utópico. A utopia só vale a pena ser tentada por ser, pela própria natureza, inatingível.
O sentido da vida é a utopia e a sua busca...
A utopia é a imortalidde. Eu acho que o homem só se realiza plenamente no momento em que morre. Neste momento ele realizou sua utopia, atingiu a imortalidade.
E como é aquilo de "nascer homem e morrer menino" do seu "epitáfio"?
O meu livro O Menino no Espelho tem uma epígrafe bem a propósito: "Quando era menino, os adultos perguntavam: que é que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, responderia: quero ser menino". Ou seja: recuperar aquela visão inédita das coisas, que só o menino tem. Porque ele não tem passado, só tem futuro e o futuro a Deus pertence. Foi o que me fez ver um amigo meu recentemente, Dom Timótio, numa carta tocante, a propósito deste assunto. Minha consciência com isso se iluminou e senti uma alegria de criança, quando percebi que, recuperando a criança, estaremos conquistando o nosso futuro. E como, segundo a ciência moderna, a partir de Stephen Hawkings, passado e futuro se reintegram, formando uma só unidade...
Quais são seus ideais de hoje?
Meus ideais se resumiriam em poder responder essa pergunta. Com a resposta que você lhe desse. Seria assumir essa resposta, a de um jovem de 23 anos. Em outras palavras: meu ideal hoje seria um dia reencontrar o jovem que fui e ele poder me estender a mão, dizendo: você não me traiu em tudo que acreditava, você continua acreditando.
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