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O ADOLESCENTE
Por Mário Quintana
A vida é tão bela que chega a dar medo.
Não o medo que paralisa e gela
estátua súbita, mas esse
medo fascinante e fremente de curiosidade que
faz o jovem felino seguir para a frente farejando
o vento ao sair, a primeira vez, da gruta.
Medo que ofusca: luz!
Cumplicemente
as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo:
Adolescente, olha! A vida é nova...
A vida é nova e anda nua -vestida apenas com o teu desejo!
Do livro "Apontamento de História Sobrenatural".

A OFERENDA
Por Mário Quintana
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.
Do livro "Esconderijos do Tempo"

Canção Azul
Por Mário Quintana
Triste, Poeta, triste a florinha azul que sem querer pisaste no teu caminho...
Miosótis, disseste, inclinado um instante sobre ela.
E ela acabou de morrer, aos poucos, dentre a relva úmida.
sem nunca ter sabido que se chamava miosótis.
Nem que iria impregnar, com o seu triste encanto,
O teu poema daquele dia...
Do livro "Canções"

O PÁSSARO PI-I
(Lenda chinesa)

Por Mário Quintana
O PÁSSARO PI-I (Lenda chinesa) O pássaro pi-i só pode viajar aos pares e por isso e o símbolo dos enamorados - pois um deles só tem a asa do lado direito e o outro só tem a asa do lado esquerdo: só bem juntinhos é que podem voar!


J U L H 0  1 9 8 8

Entrevista

Mário Quintana, Poeta da Esperança.

Sem medo da morte, Mário Quintana comemora o próprio vigor, anunciando novas obras, entre elas quatro livros infantis.

Por HERMES RODRIGUES NERY

[ Esta entrevista está dividida em duas partesPrimeira Parte.]

Foto de Mário Quintana E o que me diz da esperança? — A esperança? Olha...eu sempre digo uma coisa, que o primeiro ditado está errado. O ditado diz que, enquanto há vida, há esperança. Eu digo que enquanto há esperança há vida. Porque nunca foi encontrada em nenhuma parte do mundo, num bolso de um suicida, um bilhete de loteria que fosse correr no dia seguinte. Ele esperaria, ao menos, para comprar o revólver de ouro.

Já que falou em suicídio, o que leva muitos artistas ao suicídio? O que o sr. pensa sobre o suicídio? — Eu não posso dizer, porque eu nunca tive coragem de me matar.

Mas alguma vez pensou em se matar? — A gente sempre pensa em se matar, mas não se mata. Eu tenho notado que os que pensam ou os que falam em se matar, nunca se matam. Os suicidas que eu conheci nunca falaram em se matar. Para mim foi sempre a maior surpresa. O que se há de fazer?

S anta Tereza D'Ávila alertou-deveríamos tomar cuidado ao tentarmos nos livrar de nossos demônios para que não perdêssemos, junto com eles, os nossos anjos... — Esta é muito boa da Santa Tereza. Esta eu não conhecia.

O ideal, continua ela, é aprender a dominá-los e a conviver com eles. O que o sr. pensa a respeito disso? — Pra não perdê-los todos? Bem... Vamos botar isso nos planos, digamos da nossa mitologia atual. É o caso do dr. Jekill e Mr. Hyde, não é? "O Médico e o Monstro", quer dizer, o doutor Jekill... o meu doutor Jekill convive perfeitamente com o meu Mr. Hyde. Um não é inimigo do outro, como naquela história.

Como se dá este convívio? — Como conviviam? Ah... um tinha raiva do outro. O doutor Jekill odiava o Mr. Hyde. Já o meu doutor Jekill e o meu Mr. Hyde são amigos. Aí e que está a coisa assustadora... Eles são amigos. Vão pra farra juntos. Você viu o que é que eles fazem? Não compreendo bem, mas é isto. Não há esta luta propriamente. O que há nesta convivência é a aceitação um do outro.

A felicidade, talvez? Dizem que esta reside na infância, a sua foi boa? — A minha infância foi muito boa. No tempo em que eu era guri, Papai Noel ainda não tinha invadido o Brasil, quem botava as coisas no sapato da gente, no Dia de Reis, era o Menino Jesus. Os acontecimentos felizes da minha infância? Três sapatinhos... Os infelizes? Eu não sei, eu sempre digo que é o adulto que inventa a infância, e a invenção é que é feliz, a infância em si não pode ser tão boa.

E quando se fala em ser sempre criança? — Mas é preciso não perder nunca a criança que se tem dentro de si.

Este é o ideal? — É. A gente deve sempre conservar aquela disponibilidade, aquela curiosidade pela vida que as crianças têm. Um adulto que se 'adultiza' demais... bah! Não tem curiosidade, não tem aceitação para tudo que as crianças têm. E, antes de tudo, a curiosidade: o mais triste da vida é alguém perder a curiosidade pela própria vida.

O senhor foi um menino tímido, travesso, um 'enfant terrible?' — Sempre fui um menino tímido, algumas travessuras-mas é melhor não aprofundar os aspectos negativos... Fui um menino muito doente, a única coisa que eu fazia era, quando me confessava, inventar pecados para contentar o padre confessor.

E a escola? — Olha, para mim as crianças até os sete anos são muito inteligentes; depois, os professores, em vez de transformar as crianças em bons adultos, ao invés de 'adultizar', adulteram-nas, sabe como é? Estragam tudo.

Não é uma boa instituição, deveria desaparecer? — E claro que ela deve existir, a gente não deve deixar crescer um ser livremente, é capaz de virar tudo bandido.

O senhor traduziu Proust, Voltaire. Como foi seu contato inicial com a língua francesa? — Minha mãe lecionava francês, aprendi com meus pais, naquele tempo todo mundo falava francês, fazia parte da educação das moças: estudar piano, estudar pintura e falar francês. Acho uma coisa muito engraçada. Eu me lembro que, quando houve uma revolução lá em Alegrete, foi feita quase toda em francês — as senhoras iam visitar as madames e se comunicavam em francês para os criados não saberem o que é que se estava tramando.

Francês e Latim saíram do currículo das escolas. Isso empobrece culturalmente o aluno de hoje? — O latim nunca fez parte do meu currículo-eu fui educado no Colégio Militar de Porto Alegre, uma escola fundada pelos militares que eram positivistas e não queriam saber de nada que cheirasse a padre... Mas retirar o francês foi a maior injustiça, o francês era o veículo literário do mundo naquele tempo, e até há pouco tempo. E nós devemos muito ao conde de Belchior de Vogué, que traduziu os russos-se os russos não tivessem sido traduzidos para o francês nós desconheceríamos Dostoiévski até hoje. O que é desconhecer uma terça parte da alma humana. Porque a alma humana está dividida em três partes, uma em Shakespeare, outra na Bíblia, outra em Dostoiévski. Pelo menos para mim.

Dentre os poetas franceses quais os que mais admira? — A gente sempre admira o que mais se parece com a gente, não é? O que mais se parece comigo ou com quem mais eu me pareço foi Guilhaume Appollinaire, e outro que a gente não pode deixar de admirar é o mestre dos simbolistas, o Verlaine. Os outros são discípulos, seguidores, continuadores...

Como tradutor, como vê esta profissão? — Eu acho uma coisa de grande responsabilidade. Porque eu creio que a tradução de um poeta para a nossa língua é nada mais, nada menos, que a estréia deste poeta na literatura brasileira. De maneira que é uma enorme responsabilidade. Olha que eu traduzi Proust e que não é brinquedo. E traduzi Voltaire, traduzi Merimée, traduzi esta gente assim.

E como foi traduzir Proust? — Foi uma coisa horrível. Mas eu gostei, exatamente por causa da dificuldade. A dificuldade é uma coisa que pode cansar, mas é o mesmo que a ginástica, faz bem.

Mudando de assunto, dizem que o cigarro faz mal. O que o sr. com 82 anos, e que sempre fumou, diz deste saber popular? — O cigarro não faz mal nenhum. Eu digo por conta própria. Porque eu comecei a fumar aos 14 anos e até os 81 não tinha morrido, tá? Acontece que aos 81 anos eu estava muito magro, eu estava com o esqueleto do lado de fora, sabe como é?... Contava as costelas, então, por uma medida de precaução, para não embarcar tão cedo, eu deixei de fumar. E me dou muito bem não fumando. De maneira que o cigarro...(pausa)...ah ...há gente que chegou aos 90 anos tendo fumado toda a vida e gente que morre aos 90 anos e nunca fumou. A coisa é muito relativa.

Conte-nos de sua viagem ao Rio de Janeiro, aos 24 anos, quando passou seis meses como voluntário no 7º Batalhão de Caçadores. — Eu passei lá seis meses, lá pelas tantas pedi demissão. Passei seis meses me divertindo...me divertindo muito...

Qual sistema de governo mais lhe agrada? — Eu sempre fui monarquista.

Recentemente houve uma discussão na Constituinte em torno da possibilidade de retorno da Monarquia no Brasil... — Mas haverá antes um plebiscito...

Qual a vantagem que vê na monarquia? — Os eleitores estão cansados de tantos quatriênios desperdiçados. O primeiro ano do quatriênio é em acomodações políticas, e o último ano do quatriênio é em outros ajeitamentos políticos. De maneira que só sobram dois e não dá pra fazer nada. Já vi revoluções no Brasil que na metade da luta o governo acabava aderindo, quer dizer... fica tudo impuro. Agora, a monarquia tem o rei lá que reina, mas não governa, mas fica. Pode o primeiroministro cair, ou o povo mudar de opinião à vontade... que isso não adianta nada... fica tudo firme...

Qual o presidente da República que o senhor achou mais interessante no Brasil? — Eu sempre achei o Getúlio Vargas um grande estadista.

Como vê a era de Vargas? — O Vargas... O Getúlio Vargas fez o Estado Novo porque ele não acreditava no povo, na opinião pública... então fez o Estado Novo, mas fez também muita coisa boa... muita coisa boa, de maneira que o povo gostava dele e quando ele voltou ao governo foi pelo voto do povo, que deu um brilhante desmentido naquele que não acreditava no povo.

E o que o sr. me diz da grande guerra? — Da guerra? Mas é claro que houve um impacto da guerra. Todos nós ficamos com medo que o Hitler ganhasse, é claro... e eu, mais ainda, porque devido a minha vasta cultura francesa, eu sei pouco de geografia. Quando invadiram Pearl Harbour, eu pensei que Pearl Harbour ficasse no Atlântico e fiquei assustado, e pensei: estamos perdidos. Depois eu soube que ficava do outro lado do mundo, lá no Oceano Pacífico (ri).

Como sente uma verdadeira amizade e um verdadeiro sentimento de amor? — Olha... eu acho que a amizade é uma espécie de amor que nunca morre... e o amor é uma coisa que todo mundo sente, todo mundo tem... é uma das molas da vida, independente da sua realização. Basta estar amando. Afinal de contas, eu acho que há duas molas na vida: o amor e o ódio. E preciso estar sempre amando alguma coisa e sempre odiando alguma coisa para dar valor à vida. O próprio Cristo, que pregou o amor, foi implacável quando expulsou os vendilhões do Templo. Aquilo foi a cólera de Cristo.

A versão online desta entrevista é publicada em duas partes Clique aqui para ler a primeira parte


Hermes Rodrigues Nery é professor de História e foi colaborador do Caderno de Sábado do Jornal da Tarde.

Foto cedida por Mário Quintana.

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PenAzul junho de 1999; Página Pronta - Centro de Criação e Produção Editorial & Gráfica

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