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Entrevista
Os anos são apenas linhas imaginárias. E as pessoas é que devem decretar quando estão na flor da idade, disse o poeta Mário Quintana, ao fazer 82 anos em 30 de julho de 88. Nesta entrevista, feita na épca, ele não comemora a idade - fala de política, religião, literatura, esperança. E, sem medo da morte, comemora o próprio vigor, anunciando
novas obras, entre elas quatro livros infantis.
Por HERMES RODRIGUES NERY
[ Esta entrevista está dividida em duas partessegunda parte.]
enha-se em mente que o que é notável na obra do poeta gaúcho Mário Quintana- que hoje completa 82 anos de idade -é a recusa de uma visão amarga do mundo. Em sua poesia não existem neuroses, a esperança é o seu leit motiv. Nele próprio, nascido em Alegrete e morador quase toda a vida em Porto Alegre, tudo é solto, descontraído, informal. O que faz sua obra ser admirada por pessoas de qualquer idade, e o homem ser cercado de carinho até por pessoas que talvez nem o conheçam.
Esse carinho por Mário Quintana percebi assim que cheguei a Porto Alegre para entrevistá-lo. Pouco antes, comprei-lhe uma caixa de bombons, e a confecção do presente foi disputada pelas duas vendedoras do supermercado. "É para o Quintana!", repetiam emocionadas. Carinho também distribuído diariamente pelas três mulheres que cuidam diariamente do poeta, a secretária Mara, a sobrinha Elena, Sandra. "Não me casei, mas arrumei essas três moças que me dão um trabalho danado", brincou Quintana, apresentando-as.
O senhor crê na reencarnação?
Pois eu não sei, sabe? Eu acho felizes os que têm crenças religiosas. Acontece que eu só tenho dúvidas religiosas. O que vai se fazer, né?
O que o sr. acha do fanatismo?
O fanatismo é incompatível com a inteligência.
Como o sr. vê São Francisco de Assis?
São Francisco de Assis? Irmão isso... irmão aquilo? Ah... mas ele só gostava dos bichinhos bonitinhos. Porque ele não falou dos irmãos vermes que pululam às cargas, em outras coisas horrorosas? Na irmãzinha aranha... na irmãzinha jararaca... Só falou nas coisas bonitinhas. Ah, não...
Voltando ao seu trabalho, o senhor recebeu algum incentivo familiar em relação à sua vocação de poeta?
Ah... muito. O meu irmão Milton e minha irmã Marieta, que eram os meus irmãos mais velhos, eles gostavam muito de poesia, colecionavam poesias, leram os meus primeiros poemas, me ajudaram a escolher coisas para o meu primeiro livro, enfim, minha família me ajudou muito.
Como foi seu primeiro contato com a poesia?
Eu acho que a gente nasce com isso. Lá pelas tantas eu comecei a fazer uma coisa que julgava que era um poema. Com o tempo eles foram ficando poemas mesmo.
Na sua opinião, foi bom que as escolas literárias tivessem acabado?
Mas é claro... embarcar numa escola literária é o mesmo que entrar num mesmo barco. Quando o barco afunda, vai todo mundo pra cova.
Há na capa de um de seus livros um retrato de um quadro de Vincent van Gogh. Como vê a obra deste pintor?
É o meu pintor predileto. Não preciso explicar o que é que eu sinto... com certeza há alguma coisa dele em mim, e alguma coisa de mim nele. O amor não se explica.
A televisão contribuiu para que as pessoas lessem menos?
Contribuiu. E acho uma coisa horrível, porque antes a gente não tinha o que fazer e lia, não é?... agora todo mundo está olhando novela na tevê. Eu, por exemplo, tenho o máximo de cuidado de não telefonar para as donas de casa na hora da novela...
Dentro do pensamento brasileiro, como vê Alceu Amoroso Lima?
O Alceu Amoroso Lima, antes de tudo, era o meu grande amigo e falo também no Gilberto Freyre. Acho dois velhos admiráveis. Eu desejaria ser um velho como eles... velhos que estão sempre presentes na vida atual, sempre estiveram presentesŠ eles são sempre contemporâneos.
Neste ano do centenário da abolição, como vê o preconceito na mentalidade e atitude do nosso povo?
Eu nunca tive preconceito. E para todos nós, pelo menos na minha geração, tem uma negra velha que nos contava estórias, que nos ajudou a criar, de maneira que todos nós tivemos uma mãe preta... pelo menos na minha geração...
Eu queria fazer uma última pergunta. Como o senhor vê essa ausência de ideais que tanto caracteriza a atual geração?
Mas eu acho que notar a ausência de ideais é um sinal de que não está tudo morto, não é? Se não, não se notaria nada...
Continua...
A versão online desta entrevista é publicada em duas partes Clique aqui para ler a
segunda parte
Hermes Rodrigues Nery é professor de História e foi colaborador do Caderno de Sábado do Jornal da Tarde.
Foto cedida por Mário Quintana.Copyright © do autor. Todos os direitos reservados
PenAzul junho de 1999; Página Pronta - Centro de Criação e Produção Editorial & Gráfica
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