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FORMAÇÃO DE ADÉLIA PRADO

Autores fundamentais:

Guimarães Rosa, Drummond, Jorge de Lima e Murilo Mendes foram autores decisivos para mim. Fundamentais.


PRAZER OU DOR?
O poeta sofre para escrever?

Eu acho que fazer um poema, ainda que o mais triste, é uma situação de prazer e alegria. É uma coisa fantástica escrever. Quem escreve sabe disso. Quando eu escrevo um poema, não fico assim: "Aí, que amargura, aí, que tristeza!"


RECADO PARA OS JOVENS?
Nenhum!

Deus me livre! Nenhum recado. Que escrevam quando a poesia pedir para ser escrita. Só isso. Mais nada.


Entrevista

Adélia Prado -A EXPERIÊNCIA DO PRAZER Foto de Adélia Prado
Ela escreve desde os 14 anos, quando fez seu primeiro soneto. Mas só publicou o primeiro livro de poemas aos 40 anos, em 1976: Bagagem, lido e recebido com entusiasmo pelo poeta Carlos Drummond de Andrade. Mãe de cinco filhos, poeta e romancista, mais de oito livros publicados ­ entre eles, O Pelicano, A Faca no Peito, Os Componentes da Banda e Cacos para um Vitral ­, Adélia Prado recebeu o Caderno de Sábado em Divinópolis, Minas Gerais, para falar da condição humana, da sua experiência com a palavra e da felicidade e da beleza da criação poética.
Como foi seu encontro com a poesia? Lendo poetas, experimentei a mesma coisa que sentia desde a infância com determinados fatos e situações, então verbalizei a coisa! Ah! Aquela coisa boa que eu sentia era poesia, é poesia! Mas isso muito antes de eu escrever meus próprios textos. Isto foi na juventude.

Que experiências foram essas? A experiência de que falo é da beleza. Experimentos de plenitude, de felicidade. É a experiência de natureza poética, da revelação do real. Mas estou verbalizando isso agora, com oito livros e tudo.

Por que esta experiência não é constante e não acontece ou não atinge a todos com a mesma intensidade? Porque nós somos seres decaídos. Se eu estivesse ainda na unidade divina, de onde provenho, a sensação seria de pura plenitude, em fim. Mas como sou um ser decaído, vivo no tempo e não na eternidade, essa minha condição, a condição humana: experimentar de vez em quando essa beleza.

A poesia é uma necessidade religiosa? Ela não é uma necessidade religiosa, ela é religiosa em sua natureza. Todo fenômeno de experiência da unidade é de natureza religiosa.

A sua poesia estabelece contato com a unidade através de freqüentes referenciais cristãos, entre outros. Por que eles se manifestam tão fortes em sua obra? A poesia religiosa não é religiosa por causa do tema religioso. Não é o assunto religioso que a torna religiosa, não. Eu disse que a experiência poética é de uma natureza religiosa. A experiência, como tal. E aí você pode falar de mar, de sol, de terra que você está falando de religião. Agora, na minha obra, existem registros de natureza religiosa cristã-católica, tributários da minha formação, da minha história.

E como é esta sua história? É muito simples. Eu venho de uma família religiosa. Eu herdei todo esse conjunto de tradições, de costumes piedosos, a piedade religiosa, popular, mineira... É uma coisa muito próxima de mim. Eu fui educado dentro disso. Mas, para mim, a religião não é apenas isso.

Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja mudou muito, os rituais perderam muito de natureza poética, empobreceu-se a liturgia, banalizaram-se os ritos... Eu acredito que a Igreja institucionalizada, com seus ritos, cultos está realmente necessitada de buscar novamente o revigoramento da liturgia, da prática cristã popular, do culto. A tentativa de levar a liturgia para o povo, por exemplo, o uso do vernáculo e de instrumentos profanos na Igreja, teve um lado positivo, mas teve também um lado bastante negativo, que foi a banalização do culto e do sagrado, daquilo que deveria manifestar o sagrado. Isso provoca nas pessoas uma fome e um desassossego muito grandes. Mas vejo uma preocupação da própria Igreja em retomar certos usos, costumes, comportamentos litúrgicos, que tragam para a assembléia do povo de Deus mais alegria e beleza, mais solenidade, mais piedade mesmo, nas suas expressões comunitárias da fé.

É possível mesmo recuperar isso hoje? Claro. Evidentemente que é possível. O que permanece intacta é a nossa fome do divino. Todos esses desgovernos que a Igreja sofre como instituição é porque ela é uma igreja santa e pecadora, ela está inserida na História. Então, ela sofre esses percalços. Você faz uma volta ao popular, mas perde uma série de outras coisas. Do outro jeito você perde também. Mas é um caminhar. A Igreja tem que, realmente, retomar, por exemplo, a questão da música religiosa, que está horrivelmente precária. É feio o que se está cantando hoje na Igreja.

E nada poético. É feia porque não é poética. Você vê, a música popular religiosa: ela é maravilhosa, belíssima. Ela instiga, inspira piedade sem fazer força nenhuma, por causa da beleza. Então, se você é obrigado a cantar uma música feia (e isso é impingido aos fiéis), vem o disquinho, as letras ­ tem mais letra do que música ­; é uma letra muito enjoada, muito doutrinalizante, onde a beleza e o simples louvor são esquecidos.

Você falou em seres decaídos. Qual a sua noção do pecado? Eu sou o pecado. A criatura é o pecado. Falar que ela comete um pecado é quase uma redundância. A condição humana histórica é uma condição de pecado. O mal me habita, assim como o bem.

O que é o mal? Acho que é a recusa de Deus e de sua obra. É um assunto dificílimo. Não querer aceitar a condição de criatura. Parece que é por aí. A questão do orgulho.

Falando de sua formação literária, que autores foram decisivos no seu encontro com a literatura, a poesia? Guimarães Rosa, Drummond, Jorge de Lima e Murilo Mendes foram autores decisivos para mim. Fundamentais.

Em que medida eles foram fundamentais? Através das obras deles, eu vi espelhada a minha humanidade. Eu falei: sou um igual. Eu me vi reconhecida, me vi refletida e eles confirmaram a minha humanidade. Isso me deu um descanso, me deu alegria, falei: que bom, então não sou diferente, sou como todo mundo!

Como você se sente começando tarde com o seu trabalho? Isso para mim não tem a menor importância. Acontece que eu escrevo desde os 14 anos, quando fiz meu primeiro soneto. Mas tudo que eu escrevi até Bagagem não tem nenhum valor literário. São coisas que têm importância, para mim, afetiva, de um bom tempo da minha vida. Agora, literatura, eu comecei aos 40 anos.

Mas o que lhe deu consciência de que aquilo não era um valor literário? O fato de que eram a minha cara sem transcendência.

Você se sente nascida para a poesia, queria ser poeta? O poeta é poeta. Ele não se faz poeta. Não há escola de poetas. Não tem jeito de você ficar mais esforçado. Quando você fala para um pessoa: "Você se esforce que vai dar certo", você está mentindo. Ou você é poeta ou não é poeta. Quer dizer, eu já era poeta, mas a obra não era poesia. A obra era má.

O que é um bom crítico, para você? O bom crítico é aquele que aponta as virtudes e os vícios da obra, de maneira completamente imparcial, de maneira formal, de maneira (acho que aqui cabe a palavra) acadêmica.

E a diversidade de opiniões, de enfoques, de leituras? Como é possível a crítica imparcial nesta multiplicidade de gostos e interesses? Cada um vê a coisa de um jeito, mas a crítica tem elementos formais, acadêmicos, científicos quase, para falar que determinado livro é mau, tal verso é mau, o que aconteceu no meu último livro. Eu fui criticada pelo Felipe Fortuna em relação ao livro. E, depois de um ano, percebi a justeza das observações dele. É um livro que eu não quero reeditar: de onde 12 poemas são maus poemas e me custou ver isso.

O crítico pode servir como um termômetro para o poeta? Este é o ofício dele.

Sim, mas sabemos que há os bons críticos e os maus críticos. Como também temos bons poetas e péssimos poetas. Isso vale lá e cá.

Você pode nos apontar alguém que você considera um bom crítico? Já li críticas excelentes do Alfredo Bosi. Esse jovem que me fez crítica, o Felipe Fortuna, sobre o livro A Faca no Peito, que foi muito doloroso aceitar, mas que foi valiosíssima. É um crítico que eu respeito. O Afonso Romano gosto muito também. Eu conheço pouca gente. Não leio ensaios, crítica literária. Gosto mais de ler a obra do que a crítica.

Falemos sobre a elaboraçção do seu trabalho. O poeta João Cabral me disse que não existe aquela coisa de estalo. O que há é o trabalho contínuo e permanente. Ou, no dizer de Quintana: o grande segredo é cortar impiedosamente. Como surge o poema, para você? Quando você sente que o poema está satisfeito em um dado momento? Acho que tem que haver inspiração. Acredito na inspiração.

O que é a inspiração? É o estado e fruição poética que determina coisa lhe provoca, com o desejo imediato de expressar aquilo. É uma necessidade fatal.

A inspiração é o desejo? Não. Desejo não. Posso estar com o desejo de fazer um poema agora e não dar conta. Não é este desejo. Mas um desejo num sentido muito mais profundo. Desejo no sentido de necessidade.

Uma necessidade que você tem que superar... satisfazer... É. Eu posso passar sem esse café (segurando uma chícara de café), mas se tem um poema querendo nascer, eu tenho que dar um jeito.

É sempre um parto doloroso... Não. Não e não. O poeta que fala que sofre para escrever, não sei não...

Não é um poeta? Não sei. Pode ser um poeta de outra categoria (risos). Eu acho que fazer um poema, ainda que o mais triste, é uma situação de prazer e alegria. É uma coisa fantástica escrever. Quem escreve sabe disso. Quando eu escrevo um poema, não fico assim: "Aí, que amargura, aí, que tristeza!" Nunca vi isso na minha vida (risos).

Existe o fazer poético e a postura poética. Há os que escrevem livros de poesia e são chamados de poetas. Mas há os que não escrevem nada, mas assumem uma postura na vida, com uma sensibilidade extremamente poética. Afinal de contas, o que é ser poeta? Você atribui o título de poeta, de um modo geral, a pessoas sensíveis, que são tocadas pela beleza, pelo sentimento, que o colocam em primeiro lugar na vida, o sentimento antes da razão. Isso, corretamente. Agora, poeta, no seu sentido completo, é aquele que expressa verbalmente, de maneira rítmica, o sentimento de forma universal, que tem a ver com ele, que tem a ver comigo e que tem a ver com todo o mundo.

Como foi o aparecimento do seu primeiro livro: Bagagem? O livro apareceu em 76. Eu comecei a escrevê-lo talvez em 73, por aí. E os poemas praticamente irromperam, apareceram cargas e sobrecargas de poemas. Eu escrevia muito nesse período, e quando eu vi que o volume tinha uma unidade, que ele não era apenas uma coleção de poemas, pois tinha uma fala peculiar, dele próprio, entre outros títulos que me ocorreram, Bagagem era o que resumia, para mim, aquilo que não posso deixar ou esquecer em casa. A própria poesia.

A partir de Bagagem poesia passou a ser imprescindível em sua vida? Não. Muito antes do Bagagem, eu sabia disso. O que aconteceu foi que Bagagem formalizou isso em livro. Eu já havia descoberto que a poesia era aquilo que me fazia feliz.

Como foram as expectativas em relação à sua estréia na literatura? Eu não tive essa expectativa posterior à publicação do livro, pois, antes do seu lançamento, eu já tinha tido uma crítica do Drummond, que foi muito generosa, muito boa, que me abriu as portas... Ele fez um texto no Jornal do Brasil, dando indícios de que havia aqui em Minas um poeta assim, assim... Então, as portas se abriram. E eu fui muito feliz, criticamente falando também, o livro foi muito bem recebido.

O que você gosta de ler hoje? Eu adoro ler Psicologia. Há muito tempo que já estou lendo toda a obra de Jung; me interessa muito, profundamente.

E como está sua produção? Eu estou escrevendo um livro chamado O Homem da Mão Seca. Está muito difícil. Tem muito tempo que não dou conta de escrever mais nada. Não sei nem se vou conseguir fazer o livro...

E música? O que gosta de ouvir? Gosto muito do barroco, imensamente. É uma coisa que se desdobra, se desdobra... A gente é barroca sem saber. Eu descobri quando eu já era velha (risos). Já estava barrocando há muito tempo e não sabia (risos).

Que recado você daria aos jovens poetas de hoje? Deus me livre! Nenhum recado. Que escrevam quando a poesia pedir para ser escrita. Só isso. Mais nada.

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