Entrevista


radutor de poemas e poeta ele próprio, José Paulo Paes contou, nesta entrevista, como nasceram suas obras e explicou por que, apesar de seu amor pela ficção, não se tornou um contista ou romancista.
egundo Alfredo Bosi, na apresentação de Um por Todos, você entrava na poesia contemporânea pela estrada real da angústia, do mal-estar que o escritor sensível e diferenciado sente e ressente ao tomar consciência da sua posição de excluído, de "inútil", de esquerdo, a quem restaria apenas exercer o dom observador irônico". Quais foram os acontecimentos decisivos de sua vida que o fizeram, não só optar pelo caminho da poesia, mas, principalmente, prosseguir e manter-se nele?
- Nasci no meio dos livros - meu avô materno era dono de uma livraria, papelaria e tipografia no interior do Estado - e desde criança gostei de ler. Acho que essa intimidade precoce com a palavra impressa foi decisiva no orientar minha vocação para a literatura. Não houve, pois, um acontecimento específico que decidisse, por si só, a escolha do caminho da poesia. Foi antes, um ambiente favorável e, se me permite a imodéstia, algum talento para ela. Quanto a ter-me mantido nesse caminho, há a considerar, além do gosto e da vocação, o compromisso assumido desde a publicação do livro de estréia.
Quais foram as leituras que você considera fundamentais para o seu encontro com a poesia?
- Primeiro, os grandes poeta da modernidade brasileira. Pela ordem, Augusto dos Anjos, Bandeira, Drummond, Murilo. Depois, Oswald. Mais tarde, certas propostas menos logocêntricas da poesia concreta. E, concomitantemente, poetas de outras línguas: Éluard, Prévert, Antonio Machado, Eliot, Brecht, Kaváfis e uns poucos mais.
É possível ser poeta apenas com aquilo que se colhe no aprendizado do cotidiano, no intuitivo? Até que ponto o excesso de instrução pode inibir a intuição do artista, diminuindo-lhe a ousadia e o arrebatamento, características típicas das grandes almas poéticas?
- Não creio que a poesia nasça tão-só da ousadia e arrebatamento das grandes almas poéticas. Acho que nasce de um talento natural dinamizado por uma boa cultura e servido por um paciente artesanato. Longe de inibir-lhe os achados da intuição, a instrução ou, melhor, a cultura, ajuda o poeta a realizar na prática da escrita as virtualidades do seu talento. Veja o caso de Hölderlin, com quem venho convivendo nestes últimos dois anos, já que estou preparando um volume de traduções de poemas dele. Foi reconhecidamente uma das grandes almas poéticas que o mundo jamais conheceu. Exaltou nos seus poemas o entusiasmo dionisíaco como a faculdade mestra do poeta. Todavia, num texto de caráter teórico, disse Hölderlin: "Ali onde a sobriedade te abandona, ali está o limite do teu entusiasmo". Por sobriedade deve-se entender, no caso, a lucidez do artesão a domar e canalizar o entusiasmo do impulso lírico. Outrossim, foi Hölderlin quem revelou a seu colega de seminário, o futuro filósofo Hegel, a importância do pensamento de Heráclito acerca da luta dos contrários no universo. Daí tiraria Hegel o seu famoso método dialético.
Em que medida o poeta experimenta a "plenitude" naquilo que faz? Existe a plenitude?
- Acho que a sensação de plenitude não pode e não deve ser permanente, ao menos no caso da poesia. Sinto a plenitude da realização apenas no momento em que, após repetidas tentativas e correções, consigo chegar á forma que reputo definitiva de um poema. Mas essa plenitude termina com a realização do poema. Para voltar a experimentála, tenho de trabalhar noutro poema.
O Aluno, sua obra de estréia, é de 1947. Você se considera pertencente à chamada geração de 45?
- Rótulos geracionais são uma comodidade da história literária e como tal só aos historiadores é que podem servir e satisfazer. Todo poeta digno do nome é um mundo à parte cujas peculiaridades, cuja eventual cota de originalidade, tendem a ter obliteradas quando insistem em metê-lo à força num compartimento classificatório. Cronologicamente, pertenço à chamada geração de 45 porque meu livro de estréia é de 47. Mas estou longe de perfilhar uma certa estética programática que leva esse nome e em cujo âmbito não creio que a minha poesia, no todo ou em parte, possa ser incluída sem violentar-lhe a especificidade.
O movimento concretista parece ter deixado uma marca muito forte em seu trabalho poético, desde os primeiros livros, até a coletânea Um por Todos. Qual é a sua avaliação (hoje) do movimento concretista?
- Foi um momento importante de renovação e inovação na dinâmica histórica da poesia brasileira. Mas história é diacronia e quem pretenda eternizar as fórmulas da poesia concreta numa saudosista sincronia parece-me estar traindo o que ela tinha de mais positivo, o seu sentido de historicidade.
Novas Cartas Chilenas (1954) é um livro marcado por temas históricos e políticos, numa tentativa de compreensão dos elementos culturais que constituem a nossa herança histórica e determinam o nosso comportamento enquanto povo. As circunstância, mudam, mas continuamos essencialmente colonizados, vítimas de atrasos e carências de toda a espécie, sob o jugo de um imperialismo avassalador, que se sustenta à custa de nossa gritante miséria. Qual o caminho possível para o Brasil se encontrar enquanto nação livre e próspera?
- Se nem os legisladores de profissão, os magos da economia e os doutores da ciência política conseguiram colocar até hoje este país no sonhado caminho de nação livre e próspera, que poderá dizer a respeito, um simples poeta como eu, a não ser que continua a esperar sem desesperar de todo - o que, reconheça-se, se torna a cada dia mais difícil.
Como você acompanhou os acontecimentos políticos dos anos de arbítrio?
- Com tristeza, com náusea, com indignação, sentimentos que tentei exprimir, sob o signo da sátira, nos poemas de Meia palavra (1973) e de Resíduo (1980).
Em seu trabalho, o poeta e o ensaísta andam juntos. Quem é mais forte: o poeta ou o crítico?
- Creio que se complementam e se completam, cabendo a primazia, no meu caso pessoal, ao poeta, que nasceu bem antes do ensaísta. Este é, ao fim e ao cabo, uma persona do outro, que busca entender a literatura alheia à luz de sua experiência por assim dizer "oficinal" e ao mesmo tempo compensar-se de suas deficiências ao encontrar em outros autores o que ele próprio não conseguiu atingir. Assim é que, embora leitor constante e entusiasmado de prosa de ficção, e isso desde os anos da adolescência, jamais consegui escrever um simples conto que prestasse. Consolo-me então escrevendo ocasionalmente artigos sobre prosa de ficção ou resenhas de obras de ficção. É a minha maneira de ser, indiretamente, vicariamente, o ficcionista que nunca pude ser.
Como você (enquanto crítico e ensaísta) avalia a sua produção poética?
- Como a de um poeta que, sem ser superiormente dotado, conseguiu com esforço escrever alguns poemas não de todo despiciendos, para usar uma palavra cara ao velho José Veríssimo.
Qual o livro que você considera o mais apreciável dentro da sua visão estética? Qual aquele que você acredita ter atingido a forma poética que você admira?
- O meu próximo livro. Sempre.
Como é o seu processo de elaboração de um poema? Você o reescreve várias vezes? Você o deixa de lado, retoma-o bem depois? Trabalha até a exaustão? Como se dá o trabalho de carpintaria? Quando você se dá por satisfeito?
- Parto de uma sugestão de leitura, de um fato de realidade que me tenha particularmente impressionado, de uma palavra ou de uma expressão (as mais das vezes uma frase feita) que de repente se me afigura rica de significado, passível de desenvolvimento imaginativo. Depois vou elaborando mentalmente, a partir dessa instigação inicial, o poema propriamente dito. í medida que um verso adquire configuração satisfatória, passo-o para o papel. Quando sinto que cheguei ao verso final do poema e que este se fechou, por assim dizer, começo o processo de revisão, de acabamento, cortando o que me parece excrescente, corrigindo o que me soe canhestro ou mallogrado, preenchendo lacunas que os cortes possam ter introduzido no equilíbrio de conjunto, até o poema adquirir sua coerência ou lógica interna. Mesmo depois, ao relê-lo ocasionalmente, acabo descobrindo que o posso melhorar aqui e ali. Isso até o momento em que, saturado de tanto mexer, publico-o finalmente em jornal, revista ou livro para nunca mais vê-lo pela frente a me atazanar a paciência.
Falemos um pouco do seu trabalho como tradutor: o que você acha fundamental saber para ser um bom tradutor? Somente o conhecimento da língua? A intuição? Quais os instrumentos necessários para se chegar à boa tradução?
- Só a prática constante pode melhorar o desempenho de qualquer tradutor. Isso quando acompanhada, evidentemente, de uma não menos constante autocrítica. É corrigindo seus próprios erros - e a melhor maneira de detectálos é comparando nossa tradução com uma tradução fidedigna, em outra língua que não a nossa, da obra original - que o tradutor vai afinando o seu principal instrumento de trabalho, o desconfiômetro, que intuitivamente o adverte das armadilhas do texto a traduzir e o leva a desconfiar do acerto de soluções a que chegue sem muita convicção. E está claro que só o conhecimento da língua da qual se traduz não basta. Mais importante ainda é um domínio realmente operativo, no sentido de proficiência literária, da língua em que se traduz.
Qual foi seu primeiro trabalho como tradutor?
- Uma coletânea de contos de Charles Dickens. Foi o primeiro livro propriamente dito que traduzi. Antes, só havia vertido alguns textos curtos, esparsos; contos e pequenos ensaios.
Como foi que você descobriu os poetas gregos modernos, se quase nada havia sido traduzido deles, até então?
- Comecei lendo Kaváfis numa tradução francesa que, embora correta, me pareceu insatisfatória, já que a tradução era em prosa. Comecei então a estudar sozinho um pouco de grego moderno para poder verter os poemas Kavafianos, em verso, respeitando na medida do possível, não só a semântica do seu conteúdo como igualmente a semântica de sua forma - métrica, estrofação, rimas, assonâncias, aliterações, paralelismos etc. E para melhor compreender a posição excepcional ocupada por Kaváfis na história da poesia grega moderna, fui necessariamente levado à leitura de outros grandes poetas neo-helênicos como Sef|_ris, El'ytis, Karyot|kis etc. Tentei trazer esses poetas ao conhecimento do leitor brasileiro através da antologia Poesia Moderna da Grécia, que preparei para a Editora Guanabara e que foi por ela publicada, não muito depois da minha tradução dos Poemas de Kaváfis, lançada pela Nova Fronteira e já em 3ª edição.
Qual o poeta grego moderno que você mais admira? Por quê?
- Depois de Kaváfis, admiro particularmente Giórgos Sef|_ris (Prêmio Nobel de Literatura de 1963) de quem sonho poder um dia traduzir uma coletânea individual, a exemplo do que fiz com Kaváfis. Isso evidentemente se tiver a sorte de encontrar algum editor corajoso, disposto a publicála.
O que o levou a traduzir, selecionar e organizar o livro Poesias Eróticas?
- Em 1981, por instigação de um amigo, James Amado, traduzi ao português os Sonetos Luxuriosos de Pietro Aretino, um poeta fescenino italiano do século XVI; tais traduções foram editadas no mesmo ano pela Record. Elas me abriram os olhos para um filão da poesia mundial - o erótico-fescenino - que a hipocrisia tem mantido clandestino. À medida que conseguia localizar afloramentos desse filão, cuidava de traduzir o que me parecesse mais representativo. Quando já tinha em mãos uma quantidade razoável de textos traduzidos, resolvi preparar a coletânea Poesia Erótica emTradução, recentemente publicada pela Cia. das Letras.
Como está sendo sua experiência de traduzir Hölderlin?
- Árdua, assustadora mas estimulante. Meu conhecimento do alemão ainda é rudimentar. O pouco que sei aprendi-o sozinho, tanto assim que não sei falar nada nessa língua. O máximo que consigo é ler, assim mesmo à força de paciência e de empenho, assistido o tempo todo por dicionários e gramáticas. No caso de um alemão complexo como o de Hölderlin, tive de recorrer a traduções em outras línguas - francês, espanhol, italiano - para poder deslindar-lhe os passos mais obscuros. Mas acho que nalguns casos consegui fazer soar em português um eco, ainda que remoto, da musicalidade e do vigor expressivo da lírica hölderliniana. Como a edição da coletânea que preparei, a ser editada possivelmente pela Cia. das Letras, vai trazer o texto alemão faceando minhas versões, o leitor poderá julgar por si mesmo se tal eco é mesmo audível ou se não passa de uma ilusão compensatória do tradutor.
Quais são os seus projetos literários em vista?
- Para publicação próxima, Poetas Gregos Contemporâneos, antologia que dá seguimento a Poesia moderna da Grécia e cujos originais já entreguei à Editora Noa Noa (Florianópolis), do poeta-artesão Cleber Teixeira. Pela Editora da USP, deverá sair ainda este ano "Canaã" e o Ideário Modernista, um ensaio sobre esse romance de Graça Aranha, vendo-o como iniciador da prosa art nouveau em nossa literatura de ficção; o ensaio pôde ser escrito graças a uma bolsa de pesquisa que recebi da Ford Foundation através do Instituto de Estudos Avançados da USP. Ainda este ano também, pela Fundação Casa de Jorge Amado, de Salvador, vai ser publicado De "Cacau" a "Gabriela": um Percurso Pastoral, ensaio que escrevi por encomenda da Fundação Biblioteca Ayacucho, de Caracas, para servir de introdução a uma tradução em espanhol desses dois romances, a ser lançada proximamente por essa Fundação. Quanto a trabalhos futuros, continuo às voltas com um novo livro de poemas, Prosas, ainda em elaboração, e estou selecionando poemas do grego antigo para traduzi-los com vistas a uma antologia da Antologia Grega ou Palatina.
Que esperanças você tem para a Literatura brasileira?
- Em meus distantes tempos de ginásio, nas aulas de geografia, ouvi duas palavras que me encantaram pela sonoridade: "sinclinal" e ³anticlinal". Acho que atualmente a poesia brasileira enveredou por uma anticlinal ou inclinação descendente: está portanto em baixa no que respeita ao seu nível de inventividade. Há muita gente escrevendo poesia, alguns com talento inclusive, mas sem produzir nada de realmente novo. Nossa prosa de ficção parece estar em situação um pouco melhor. Mas, poetas ou prosadores, todos os nossos autores vêem-se defrontados por um ambiente mais apático do que nunca, quando não abertamente hostil. Os editores não os olham com grande simpatia. Nem os poucos e raros suplementos literários ou páginas de livros que ainda subsistem nestes tempos de comercialismo mais do que rasteiro. Eles preferem dedicar o melhor do seu espaço à promoção de livros traduzidos, por medíocres ou anódinos que sejam, deixando em segundo lugar, amiúde ignorando-a de todo, a produção literária propriamente brasileira. Longe de mim advogar uma Literobrás ou perfilhar qualquer tipo de isolacionismo cultural: sei muito bem que as literaturas têm de ser vasos intercomunicantes no sistema da Weltliteratur sonhada por Goethe. Mas o que se vê por aqui é só um bovarismo caolho que até daria vontade de rir, não fosse tão pernóstico e tão daninho. A continuar as coisas como andam, logo logo o escritor brasileiro vai ter de ser defendido por alguma entidade ecológica como uma espécie de mico-leão em acelerado processo de extinção.
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