Entrevista

[ Esta entrevista está dividida em duas partesprimeira parte.]

scritor, jornalista, político, biógrafo. Fernando Morais já percorreu vários caminhos da pesquisa de momentos significativos da História, como a Revolução Cubana e a entrega de Olga Benário, mulher de Prestes, aos carrascos nazistas. Em sua biografia de Chatô, ele traça um perfil abrangente do homem que foi o imperador da imprensa brasileira.
Por HERMES RODRIGUES NERY
Você falou do papel da escola no seu encontro com a vocação literária. Além da alfabetização, em termos literários, em termos de política, a escola também teve um papel tão importante quanto ao da alfabetização, pura e simplesmente?
Sim. Teve. Eu me lembro de que era estimulado a ler obras de boa qualidade, e prestar contas do livro que foi lido (nada muito diferente do que se deveria ler hoje: Machado de Assis, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos...). Além de dar a ferramenta, a escola fazia usá-la, sabe? Você tinha que ler e escrever. A minha experiência me ensinou que a escola propicia a descoberta de vocações.
Foi isso que você tentou recuperar na sua atuação como secretário da Cultura, com as oficinas culturais?
Esse é o objetivo das oficinas culturais. Por que a gente implantou tanto a oficina cultural pelo estado inteiro? Pra quê? Pra tentar despertar a vocação para a música, a pintura, a literatura, o vídeo, a fotografia, nas parcelas da população que não têm materialmente, economicamente, condições para isso. Então, no fundo, a oficina cultural é a tentativa de ressurreição de algo que a escola pública dava antes.
A escola de hoje não tem conseguido situar o aluno nos problemas contemporâneos. O aluno sente a História como algo que já foi, que não diz respeito a ele. Não consegue entender que o conhecimento pode servir como um repensar contínuo da condição humana, da sua própria condição, pode lhe dar rumos e sentido para a vida. A arte não tem encontrado o seu espaço na escola. Há a precariedade dos recursos, a deficiência do currículo etc. Falta a música, não dá para usá-la como uma forma, um método possível. A pintura também. Você não pode usar. Nós temos livros pessimamente impressos. Falta a prática de leitura. Não só dos livros, mas de tudo. O aluno sabe ler uma pintura, ouvir uma música, pensar o estar no mundo...
Foi pensando nisso que nos empenhamos nas oficinas culturais, como forma de resgatar a oportunidade de oferecer condições a que as pessoas possam se encontrar vocacionalmente e, a partir daí, a pensar o mundo, a ampliar suas potencialidades. Eu me lembro que não foi em aula de artes, mas de História, que fiz, talvez, a minha única experiência com teatro. Encenamos a Inconfidência Mineira. Eu me lembro ter feito o papel de Joaquim Silvério dos Reis. Através da encenação pudemos aprender não apenas a história político-administrativa trazida nos manuais, mas a história feita de paixões, de contradições, de sentimentos plurais. Então, era uma escola que certamente oferecia ao estudante uma gama maior de possibilidades, para ele se encontrar com as suas vocações, de uma maneira seguramente mais consistente do que é oferecido hoje. Certamente, muito mais.
Por que hoje não são mais oferecidas as condições para isso? O que aconteceu?
Olha, acho que isso é um problema de três décadas, portanto, um problema de quase duas gerações.
Temos notícias de que o problema não é só no Brasil... Os Estados Unidos estão tendo esse problema também.
É um problema mundial. Vivemos uma crise de civilização...
A degradação da escola nos Estados Unidos é algo que está começando a preocupar o presidente da República. Li uma entrevista a respeito disso, há pouco.
O Japão, com sua sofisticação tecnológica, está tendo problemas também. Há matérias sobre o fracasso na França, sem falar no nosso modelo...
Eu não me aventuraria a explicar as razões pelas quais esse fenômeno vem acontecendo fora daqui. Mas aqui dá pra gente jogar alguma luz nessa sombra. Primeiro, que acho que a Educação deixou de ser um valor importante para a sociedade brasileira.
Por quê?
Por um processo de degradação social que se localiza em vários nós da sociedade. Mas, na área da Educação você percebe que a degradação da escola pública (fruto dessa desvalorização da Educação) fez com que a classe média, que é multiplicadora de opinião, que tem possibilidade de ler um jornal, de ir a uma televisão, de dar uma entrevista... A classe média tirou os seus filhos da escola pública. Então, a preocupação dos multiplicadores de opinião com a escola pública passou a ser uma preocupação meramente intelectual.
Como assim?
Do mesmo jeito que você se preocupa com os curdos, os sérvios e os croatas, que estão se matando (evidente que isso toca, você é um ser humano, que a sua sensibilidade fica afetada por isso), você desliga a televisão, janta, toma o seu copo de uísque, a sua cerveja, você vai dormir e pronto: você esquece daquilo tudo. Aquilo não é um problema seu. Aquilo é um problema curdo, sérvio ou croata. Hoje, a relação da classe média, majoritariamente da classe média brasileira, com a Educação é essa: está todo mundo preocupado, mas...
E como solucionar isso?
É necessário encontrar dirigentes públicos que tenham a determinação de acabar com essa tragédia. Mas isso é muito difícil. As pessoas estão convencidas de que a Educação não eleje ninguém. Então, é preciso ter muita coragem para investir pesado em Educação, que é coisa que esse governo está pretendendo fazer, mesmo sabendo que isso não dará resultado eleitoral.
E o papel da sociedade civil, nesse processo?
A sociedade também está começando a perceber que se nada for feito em prol da Educação, seremos degolados pela barbárie. As chamadas elites estão começando a perceber que a incúria com Educação leva a altas taxas de criminalidade. Os industriais estão percebendo que a mão-de-obra que eles recebem em suas indústrias, que enterram o país nessa condição de país atrasado, é fruto de má Educação.
A falência das instituições como resultado disso...
Chegamos a um tal grau de deterioração, de degradação, que não podemos ficar apenas no discurso. É necessário e urgente que tomemos atitudes. Corremos riscos muito sérios se nada for feito. Nesse sentido, estamos propondo um projeto, que consideramos da mais alta importância, da maior urgência. É preciso que se entenda que uma nova escola está aparecendo, começando a aparecer agora, e que só vai oferecer resultado na geração seguinte, não na eleição seguinte.
Ou nas gerações seguintes...
Até que ponto o baixo nível educacional reflete no resultado das urnas?
Nas pesquisas, todo mundo se queixa que as pessoas não sabem votar. Por quê? Porque não sabem pensar. Porque não sabem ler. Não lêem jornal. São incapazes, além do que parece na televisão, de se informar um pouco melhor. Então, há uma preocupação generalizada hoje. Agora, esse propalado interesse, por parte das elites, dos industriais que se dizem preocupados com a questão da Educação, não é por generosidade, não é por desprendimento. É porque, de uma hora para outra, eles perceberam que, se quiserem continuar vivendo nesse país, sem medo de serem degolados na vida pública, eles vão ter que dividir com o Estado a responsabilidade para a questão da Educação.
Sem Educação não haverá futuro para o Brasil?
Por exemplo, bilhões de dólares foram desperdiçados nas usinas nucleares de Angra dos Reis. Se tivessem sido aplicados na Educação, o Brasil já teria comprado sua passagem para o 1º Mundo.
Então, na sua opinião, a prioridade nacional deve ser a Educação?
Hoje, a gente está discutindo aqui parlamentarismo, presidencialismo, ou até monarquia, como querem alguns... É muito saudável isso. É próprio da democracia. Acho bom que o país discuta. Agora, se nós não resolvermos já o problema da Educação, não importa se o Brasil vai ser parlamentarista ou presidencialista. Se o sistema for capitalista ou socialista. Não será civilizado.
Educação pode mudar a sociedade?
Não tenho nenhuma dúvida. E outra coisa: dinheiro não é o único problema. É importante, mas há outras coisas também muito importantes.
Quais?
Determinação política é o principal da coisa.
E o professor? Se não acreditar nele mesmo, achamos que ele tem pouco a fazer numa sala de aula. Como recuperar o sentimento de dignidade do professor? O que a Secretaria está fazendo, nesse sentido?
Nós estamos com um projeto. Há seis meses que o governador Fleury assumiu e que assumi junto com ele. Passamos esses meses trabalhando em cima de um projeto de reformas profundas na Educação.
A escola-padrão? Quem participou da elaboração do projeto?
Chamamos 100 pessoas, metade da rede pública, metade convidados de fora, sem nenhum preconceito de natureza partidária.
Qual foi o critério de escolha dessas pessoas?
Só um critério. Experiência acumulada na preocupação com Educação Pública.
Qual o resultado do trabalho?
Esse pessoal trabalhou aproximadamente quatro meses, em cima de treze áreas críticas, que nós localizamos a partir de todos os diagnósticos que tinham sido feitos até agora pelas três Universidades públicas, por meus antecessores, aqui; por partidos políticos, por organizações não governamentais, por grupos da sociedade civil... Nós juntamos aquela montanha de diagnósticos existentes, tabulamos naquele computador, e identificamos as preocupações comuns a todas essas áreas. E em cima dessas preocupações é que esses grupos começaram a trabalhar. Muito bem. Desse trabalho de cem dias, saiu o desenho, o perfil, de uma escola ( não vou chamar de escola-modelo, nem de escola-ideal), mas de uma escola com padrão diferente de qualidade.
Que perfil é esse?
Um perfil que vai desde o aspecto físico da escola, até as transformações pedagógicas mais profundas.
Então, padrão não é homogeneização massificante?
Muita gente se espantou, dizendo: então, vamos padronizar as escolas de São Paulo? Todas vão ter uma cara só? E a diversidade social? Diadema é diferente de Presidente Prudente. Barra do Saí é diferente de Catanduva. Não. Não é padronização, não. Padrão aí, vem de padrão de qualidade diferenciado que a gente oferecer.
E o que se pretende fazer para melhorar o padrão de qualidade?
A primeira meta estabelecida pelo plano de reformas é que até o fim do governo Fleury, nenhuma criança vai passar menos de 1.000 horas por ano na sala de aula. É uma revolução! Isto obriga automaticamente a quê? A ter escolas com, no máximo, três turnos, como sempre foi. Se vocês andarem por aí, vão encontrar aqui na região metropolitana, escolas com até sete turnos. É um absurdo!
Basta aumentar o número de horas de permanência do aluno, em sala de aula, para melhorar a qualidade de ensino?
Não. Nós vamos montar 15 centros de formação, de capacitação e atualização de professores. Um grande centro aqui em São Paulo, na capital, para atender a região metropolitana, e 14 centros espalhados nas capitais das regiões administrativas, para que os professores de Sto. Anastácio tenham que andar poucos quilômetros para ir até a sede da sua região, para que os professores de Catanduva tenham que ir só até Rio Preto. Em segundo lugar, para uma rede gigantesca como a nossa, com cerca de 6 milhões de crianças, 300 mil funcionários, você obritoriamente tem que usar meios eletrônicos de comunicação. O presidente da República já se comprometeu a nos dar (já falei com o Ministro João Santana), até o final do ano, vamos ter um canal de satélite e um canal de UHF da Secretaria da Educação para capacitação de professores e para apoio pedagógico. Nada substitui o professor. Mas você deve ajudá-lo a melhorar seu desempenho. Outra meta; ao lado das 1.000 horas: nenhuma classe poderá ter, até o fim desse governo, mais de 35 alunos.
Em que medida a Secretaria vai avaliar o desempenho das escolas-padrão?
Tudo. Absolutamente tudo o que acontece nessa rede, cai nessa mesa aqui. Um dos pilares da reforma é dar às escolas-padrão autonomia escolar, o que não significa entregar a escola à sua própria sorte. O Estado não vai abdicar da sua responsabilidade de estabelecer controle sobre a qualidade do serviço prestado. Estaremos atentos. Agora, só para dar um exemplo, quem melhor deve saber como pode ser administrado o laboratório de química na EESG Prof. Augusto Meirelles Reis Filho, são os professores, a direção e a comunidade do Meirelles. Eles devem encontrar a melhor maneira de administrar o seu laboratório, dentro de sua realidade, que é bem diferente de qualquer outra escola em todo o Estado de São Paulo. Também vamos fazer um contrato de gestão com cada uma das escolas.
Como irá funcionar?
Primeiro, irão se juntar pais, professores, diretores da escola, que irão dizer o seguinte: "A meta do Meirelles para esse ano é essa". Feito isso, solicita-se a quantia em cruzeiros, por mês, de equipamentos e materiais necessários para a viabilização da meta. A Secretaria dá. Agora, vamos assinar um contrato. O Meirelles terá de cumprir sua meta. A Secretaria cumpre com a sua parte. Haverá uma avaliação permanente do desempenho da escola e dos alunos.
O que mais você acha de importante ressaltar sobre o projeto?
Há muitas coisas, muitos detalhes e pontos imbricados entre si, que fazem desse projeto o mais ousado já apresentado por um governo, que se propôs a mexer na ferida e a extirpar, de uma vez por todas, o câncer que vem atingin-do há decadas o organismo social. Não podemos aceitar o que aí está. Eu estou aqui no olho do furacão, no momento em que apresentamos à sociedade um projeto de reformas significativas, para que possamos vislumbrar um futuro possível a todos nós, para que os nossos filhos tenham orgulho da escola pública.
Você falou do lado humano das personagens que escreve. O que mais o fascina e o que mais repudia no ser humano?
O que mais me fascina é a generosidade. Não confundir com caridade. É generosidade. Desprendimento. As pessoas que são capazes de correr riscos, de dar a sua própria vida para obter coisas, obter conquistas, que não são para si próprias, mas para o outro, para a coletividade, para o próximo. Agora, o que me causa repulsa, o que me repugna no ser humano, é o oposto disso: o egoísmo, a mesquinharia, o fulano que vive de olho em seu próprio umbigo, com sua própria impressão digital, não é capaz de ver o que está acontecendo a sua volta, não é capaz de um gesto, o menor que for, de tolerância, de atenção a quem está ao seu lado, de sua gente. Aí está o que me repugna: a incapacidade de gestos de amor.
Além da literatura, do jornalismo, a política é uma das maneiras de você buscar o exercício da generosidade, isto é, para que se conquistem melhorias para a coletividade?
O esforço é sempre esse. Quando escrevemos ou quanto atuamos politicamente, sobretudo quando temos psosibilidades de mexer, aqui e ali, tentando melhorar as condições de vida da coletividade. Mas nem sempre é fácil. O poder tem as suas limitações. Como secretário da Cultura, e agora na Secretaria da Educação, a gente tem trabalhado nesse sentido. As dificuldades são imensas, a começar por aqueles que nunca acreditam que as coisas podem acontecer, que a nossa vontade e determinação são fundamentais quando nos empenhamos em apontar caminhos, oferecer condições para que a vida seja mais digna, mais humana, menos agressiva. Em qualquer das nossas atividades, seja escrevendo seja na sala de aula ou num cargo público, não podemos perder de vista os objetivos humanizadores da vida.
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