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Título: Luiz Schwarcz - O Bom Leitor Faz o Bom Foto de Caio Fernando de Abreu


Caio Fernando de Abreu é um autor que acompanho, é meu amigo pessoal, colaborador da editora. Acompanho o Caio desde os Morangos Mofados, na Brasiliense. Agora tive o prazer de editar Os Dragões Não Conhecem o Paraíso.



LATINO-AMERICANOS
Título: Luiz Schwarcz - O Bom Leitor Faz o Bom Foto de Julio Cortázar
Cortázar

Autor decisivo

Quais os autores que foram decisivos na sua formação intelectual?
Dos autores latino-americanos fiquei fascinado por Julio Cortázar. Um dos livros que mais marcou a minha vida foi Jogo da Amarelinha. É claro Borges é um autor que adoro.


LEITURAS
Título: Luiz Schwarcz - O Bom Leitor Faz o Bom Foto de Rubem Fonseca
Balzac

Autores importantes
E quanto aos estrangeiros? Dos autores estrangeiros, sempre menciono muito um livro que marcou a minha formação intelectual: O Estrangeiro, de Albert Camus, depois A Montanha Mágica e Morte em Veneza, de Thomas Mann. Li com enorme prazer as Ilusões Perdidas, de Balzac.



ADMIRAÇÃO

Título: Luiz Schwarcz - O Bom Leitor Faz o Bom Foto de Rubem Fonseca
Rubem Fonseca

Entusiasmo pelos contos e pelos romances de Rubem

Quais são seus prediletos, hoje?

Sempre fui um grande fã do Rubem Fonseca, de longa data, desde seus livros de contos. Acompanhei com grande entusiasmo seus romances. Foi uma das coisas mais gratificantes da minha carreira ter me tornado editor do Rubem Fonseca, que é dos autores brasileiros que admiro profundamente, assim como o mestre Raduan.


Entrevista

Título: Luiz Schwarcz - O Bom Leitor Faz o Bom Livro

Foto do editor Luiz Schwarcz
A Cia. das Letras firmou-se no País com uma proposta renovadora. Seu criador, o editor Luiz Schwarcz, conta como conquistou sua faixa de mercado e fala do seu programa de lançamento de novos autores brasileiros.


Por HERMES RODRIGUES NERY

Como você se sente investindo na publicação de livros de tão alta qualidade num país onde se lê tão pouco? Acho muito boa a sua pergunta, justamente pela surpresa que propicia. A gente sempre pensa que o Brasil é um país de poucos leitores, e esta talvez seja uma verdade com uma sustentação bastante frágil. O número de leitores, no Brasil, embora seja pequeno, devemos levar em conta que estamos falando de um país com uma enorme deficiência no sistema educacional, com uma porcentagem de analfabetismo muito grande ­ e, apesar disso tudo, nós temos um índice de leitores que é crescente. Se você pensar, muitas vezes as tiragens brasileiras não são muito diferentes das tiragens européias. É que o livro no mundo inteiro, na grande maioria dos casos, não é um produto de massa, e por maior que seja o mercado de best-sellers, das edições de pocket americano, você tem, por exemplo, o mercado francês que é tido como um dos mercados onde mais se lê no mundo (e as tiragens francesas não diferem das brasileiras). O problema é que ­ e isto não é um demérito para o livro ­ ele não é um produto de massa.

Lê-se pouco... Está correto você pensar que se lê pouco, e todos os esforços da iniciativa privada, das editoras em geral, e da iniciativa pública devem se dirigir no sentido de aumentar o índice de leitura, de aproximar mais o livro da população. Apesar de todos os nossos problemas, acontecem umas coisas estranhas no nosso país. Às vezes, o livro do mais alto nível faz maior sucesso do que em países desenvolvidos. Isto me anima às vezes. Tenho uma história que conto muito: quando a editora foi criada e fiz minha primeira viagem internacional (foi aos Estados Unidos), falei que ia fazer uma editora radical, no sentido de só publicar qualidade. A impressão que tinha é que as pessoas olhavam para mim e diziam: "Ele deve ter bastante dinheiro para perder", e eu estava pensando num projeto viável. Mas havia indicativos de mercado. A lista dos mais vendidos brasileiros, em muitos períodos, é uma lista mais culta do que a de um país europeu ou a dos Estados Unidos. Esse indicativo mostra que aqui o fenômeno ocorre de uma maneira diferente. Nessas coisas do Brasil é que a gente precisa pensar um pouco mais.

Como nasceu a Companhia das Letras? Esta é uma história um pouco conhecida do público mais ligado ao mundo editorial. A Companhia das Letras nasceu de uma inquietação minha. Eu trabalhava na Brasiliense, tinha chegado a ser diretor editorial, por vários anos. Eu tive um contato muito bom e aprendi muitas coisas na minha experiência lá. Chegou um determinado momento em que senti que havia um espaço para fazer aquilo de que mais gostava. Eu me sentia inclinado, na minha profissão, e via condições de fazer uma coisa de que gostava mais.

Do que você mais gostava? Eu gosto de trabalhar com boa literatura, com livros de qualidade. Eu gosto é de um bom livro. A Brasiliense produzia basicamente livros de qualidade, mas com um perfil misto. Era uma editora de porte maior, com um número maior de títulos. Eu sentia que havia espaço para fazer um projeto diferente: uma editora menor, de certa maneira, por um lado sedimentada pelo aspecto da qualidade, por outro tentando levar qualidade para um público mais amplo. Achava que havia interesse por qualidade radical num país como o nosso. O projeto era o de uma editora com esse perfil. Isto crescia dentro de mim: tentar provar a mim mesmo, às pessoas. Tornar esse projeto viável é fruto de uma inquietação pessoal.

O que você entende por um bom texto literário? A gente não consegue explicar quando um livro é bom. Não existem fórmulas possíveis que dêem esse significado a uma produção literária. A qualidade do livro é um dado subjetivo e se garante em dois estágios: o da criação e o da leitura. Acho que você tem no trabalho literário alguns índices de qualidade. Tem o talento do escritor em saber expressar-se. Você avalia uma obra literária pela criatividade, sensibilidade e capacidade de carpinteiro da linguagem que o escritor deve possuir. Toda obra literária é um trabalho de carpintaria. Se você o preferir, o escritor deve ser um lapidador.

Deve trabalhar incessantemente... Uma das coisas que traz qualidade ao livro é o trabalho. Uma pessoa se transforma num bom escritor, capaz de produzir um bom livro, com muito trabalho. Não é somente fruto da genialidade, um dom divino, simplesmente. Sem dúvida, você tem que ter o talento, a sensibilidade desenvolvida ­ aquela imagem boêmia do artista, a intuição, todas essas coisas. Mas a sensibilidade e a genialidade têm de se combinar com muito trabalho, trabalho muito árduo, com muita leitura e elaboração. Não consigo chegar a uma fórmula e dizer quando um livro é bom. Um bom livro também é fruto de boas leituras. O leitor acaba tendo um papel importante na transformação de um livro em um bom livro. O dia em que souber definir "a fórmula" do livro bom, largo essa minha profissão.

Qual a sua experiência profissional antes do aparecimento da Companhia das Letras? Não tenho uma história de vida muito interessante que possa aumentar o número de laudas desta entrevista. Tenho uma vida bastante comum. Sempre tive interesse por livros, desde pequeno busquei conhecer um pouco de Literatura. Desde a minha adolescência fui encaminhado para seguir uma carreira profissional de administrador, e por uma opção universitária acabei estudando na GV ­ Administração de Empresas ­, mas algo me dizia que aquele talvez não fosse o meu caminho, não fosse a opção que mais se amoldava ao meu gosto. No percurso universitário, me aproximei muito dos livros. Passei a estudar Ciências Sociais por conta própria. Passei a trabalhar com os professores de Ciências Sociais da GV. Formava grupos de estudos, lia muito; durante certo tempo tive esta coisa muito engraçada de só ler coisas de Ciências Sociais, e cheguei até a abandonar um pouco as leituras literárias, lia, antes de dormir, Fernando Henrique Cardoso, esse tipo de coisas; sempre preocupado com Ciências Humanas, acabei me formando, ou fazendo formação na área de Humanidades.

Como começou a trabalhar? Trabalhei um pouco em pesquisa, e achava que ia seguir uma carreira universitária, que seria um professor universitário, faria uma carreira acadêmica... Mas aí entrei na Brasiliense para fazer um estágio e me apaixonei. A Brasiliense me criou inúmeras oportunidades. Posso dizer até que tive muita sorte neste percurso, um pouco por ter caído na GV, sem me amoldar ao perfil de aluno da GV. Eu acho que foi uma sorte, porque, se tivesse feito História ou Ciências Sociais, que era o que estava pensando fazer, hoje talvez seria um professor cheio de melancolia, um acadêmico entristecido.

A vida acadêmica é isso aí? Eu respeito e idealizo profundamente a vida acadêmica, mas, claramente, percebo que não tenho perfil de um pesquisador, de um professor. Não tenho a disciplina necessária e o rigor para seguir uma carreira de pesquisa, uma carreira acadêmica. Então, foi bom o acaso ter me levado à GV, onde, de certa maneira, peguei um pouco dessa mentalidade de administrador capacitado, por não ser uma pessoa metódica. Sou extremamente dispersivo. Enfim, acabei encontrando um meio termo entre a carreira acadêmica, intelectual e um trabalho empresarial, também no sentido de que estou ajudando a produzir coisas, interferindo numa coisa que é mobilizada por um sistema de mercado. Acho que tive um pouco de sorte. Esta é a minha trajetória meio desinteressante da vida, é a história que vai acabar aqui na Companhia das Letras.

Quais são as grandes dificuldades de se editar no Brasil? A gente tem dificuldades que muitas vezes são específicas ao Brasil e outras não. Por exemplo, vou citar uma não específica que é a questão da tradução. Um dos problemas mais sérios é a qualidade das traduções, que não é somente um problema brasileiro e sim internacional. É claro que, quanto mais desenvolvido for o mercado, melhor a remuneração possível do tradutor e maior é a facilidade que se tem para resolver esses problemas. Tive contato, por exemplo, com editores alemães, e ficamos impressionados com a semelhança das dificuldades que temos nessa área.

Não há tradutores de literatura? A natureza do trabalho de tradução é difícil. Você teria que ter um elenco de escritores capacitados, porque um tradutor literário, na verdade, tem de ser um escritor. Não basta o simples conhecimento técnico da língua, tem que ser um escritor, um poeta, com a sensibilidade de um e outro. Temos problemas específicos também, como o de não ter em todo o País um bom sistema de distribuição, isto é, livrarias fortes, coisas que, infelizmente, a gente ainda não tem. Para começar a resolver este problema ajudaria muito canalizar a venda dos livros didáticos para as livrarias, evitando a venda direta.

Qual é o critério de seleção dos livros publicados pela Companhia das Letras? Uma editora moderna se estabelece determinando uma política editorial. Antigamente você constituía uma editora com a somatória das oportunidades que fossem surgindo para o editor. Hoje, acho que não se deve ir só pelo senso de oportunidades. Você não pode ficar sentado atrás de uma mesa e falando assim: "Bom, as coisas vão surgindo, isto vende, isto não vende". Hoje, para você fazer uma editora é preciso criar uma concepção, uma política editorial, uma idéia da faixa de mercado que você quer atingir; então, você primeiro deve partir de uma definição: bom, vou procurar atingir esta linha editorial!

Qual é a linha da Companhia das Letras? Na Companhia das Letras nossa linha é assim: primeiramente posso definir a Companhia das Letras como uma editora de livros de qualidade. Depois, como uma editora que procura editar Literatura e Ciências Humanas (com qualidade literária). Assim, você vai determinando uma linha editorial. Então, mais especificamente, dentro deste tipo de Ciências Humanas, que área vamos cobrir? Aí você vai especificando. Por exemplo: que tal publicar uma historiografia que está produzindo obras bastante inovadoras, que traz a história para a vida cotidiana, traz para o Brasil uma nova história chamada história das sensibilidades, história das mentalidades, que ao mesmo tempo é nova no Brasil e tem interesse e importância pra o público de historiadores, e atinge um público mais amplo. Esta pode ser uma boa linha. Ou que tal publicar obras de grandes ensaístas que foram escritas com grande rigor literário, com grande qualidade literária? Por exemplo, o Edmund Wilson... Então, este é um outro raciocínio que cho que pode ser desenvolvido por uma editora.

Como a sua? Estou exemplificando com o que aconteceu com a minha editora, que conheço melhor. É importante estabelecer uma linha de pensamento, partindo de um plano geral e procurando as especificações necessárias. Você parte de uma idéia mais geral, vai especificando, vai trabalhando em algumas linhas, um livro vai sugerindo outro, você cria quase uma irmandade, um livro leva a outro, e assim por diante. A partir de alguns critérios, você deve estabelecer uma política editorial, e passa a buscar coisas que você conhece ou recomendações de especialistas. Você cria consultorias, recebe muitas propostas que vão se encaixando na sua proposta inicial ou não, outras vão transformando sua idéia em novas e outras propostas. Você precisa estar aberto a todas as propostas, ouvir aqui e ali, buscando ampliar seus horizontes. As melhores idéias editoriais surgem às vezes ao acaso, em uma boa conversa. Você não pode ficar preso à sua determinação e nela se fixar, continuando estático em relação às coisas que estão acontecendo à sua volta. Você deve buscar o melhor, e, para isso, deve estar atento.

Observamos também uma excelente qualidade gráfica (impressão, acabamento, papel, diagramação) nos livros que você publica... Isto também faz parte da política editorial. O papel do editor não é simplesmente saber escolher bem os títulos que vai publicar. Primeiro, que a escolha não é absolutamente individual. O editor não é absolutamente individual. O editor não é aquela figura atrás da mesa, dono das decisões, um poço da cultura universal. O editor tem um papel de interventor cultural, intervém com suas escolhas e, além de saber escolher, é preciso que o editor dê um tratamento material adequado, que torne o livro agradável de se ler.

Qual sua maior preocupação? Antes de mais nada, ser editor é saber trabalhar em equipe e valorizar a minúcia. Eu me preocupo muito com a escolha dos formatos dos livros, o tipo de corpo, de letra que está sendo impressa no livro. Às vezes, o leitor nem sabe que aquele tipo de letra foi desenhado por um especialista no século XVIII... Cada letra tem uma determinada característica, faz parte de uma política editoral a escolha da tipologia que você vai utilizar em seus livros, o tamanho da letra ­ esta é uma área que sempre me entusiasma. Quanto mais você pensa no livro como objeto, mais você o está respeitando como sujeito. Quanto mais você se peocupar (também) com as coisas materiais que envolvem a produção de um livro, e procurar adequar aquele tipo de livro a determinada produção gráfica, você estará, sem dúvida, mais próximo nas idéias e essência daquele livro. Quanto mais você se aproxima da concepção de livro-objeto, mais você respeita o livro como sujeito. Esse exercício de minúcia editorial é onde também se exercita a criatividade de um editor. O tratamento gráfico, a escolha do papel, a determinação das capas, a criação das coleções, enfim, tudo isso deve fazer o dia-a-dia do editor.

Quais os autores que foram decisivos na sua formação intelectual? Eu tenho as minhas predileções na área da literatura. Eu fiquei muito marcado por escritores brasileiros. Como Machado de Assis. Um livro que me marcou muito, que achei um livro muito forte, talvez não tenha a mesma qualidade literária de Machado de Assis, mas, enfim, gostei muito, foi Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Gostava muito de ler os contos do Lima. Guimarães Rosa vim a ler mais recentemente. Dos autores latino-americanos fiquei fascinado por Julio Cortázar. Um dos livros que mais marcou a minha vida foi Jogo da Amarelinha. É claro Borges é um autor que adoro.

Quais são seus prediletos, hoje? Sempre fui um grande fã do Rubem Fonseca, de longa data, desde seus livros de contos. Acompanhei com grande entusiasmo seus romances. Foi uma das coisas mais gratificantes da minha carreira ter me tornado editor do Rubem Fonseca, que é dos autores brasileiros que admiro profundamente, assim como o mestre Raduan. Eles são alguns dos meus prediletos. Gosto demais também do Sérgio Sant'Anna, tenho admiração muito grande pelo Jorge Amado, Moacir Scliar, Lygia Fagundes Telles, entre muitos outros. Caio Fernando Abreu é um autor que acompanho, é meu amigo pessoal, colaborador da editora. Acompanho o Caio desde os Morangos Mofados, na Brasiliense. Agora tive o prazer de editar Os Dragões Não Conhecem o Paraíso. Na época, gostei demais do Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. Li antes de ser censurado. Acho Ivan Angelo um escritor de primeira linha. Me sinto muito honrado de ser amigo pessoal de muitos deles, como o Rubem Fonseca, o Raduan Nassar e o Fernando Moraes que também é um superescritor.

E quanto a autores estrangeiros? Dos autores estrangeiros, sempre menciono muito um livro que marcou a minha formação intelectual: O Estrangeiro, de Albert Camus, depois A Montanha Mágica e Morte em Veneza, de Thomas Mann. Li com enorme prazer as Ilusões Perdidas, de Balzac. Estes são alguns que, por exemplo, posso mencionar como meus autores prediletos. Como não sou escritor, nem intelectual, não posso dizer que esses autores são importantes na minha formação profissional mas, sim, na minha formaçção pessoal.

E os poetas de sua preferência? Não sou um grande leitor de poesia, aprecio, claro, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, que são poetas que li um pouco. Admiro Fernando Pessoa. Acompanho algumas edições de poetas contemporâneos. Acho muito interessante esta nova iniciativa do Augusto Massi: fazer edições extremamente caprichosas na coleção Claro Enigma, e demonstrar um pouco desta força que a poesia contemporânea brasileira tem, com a publicação do José Paulo Paes, da Orides Fontela, Chico Alvim, que é um poeta fantástico, João Moura, Sebastião Uchoa Leite, Alcides Villaça. Sei avaliar que o Antonio Franceschi e o Rubens Torres são grandes poetas. Eu aprecio e gosto de poesia, mas não sou um conhecedor desta área. Acredito que tenham sido importantes para a minha formação, alguns livros de Ciências Humanas. Fui um grande leitor de Michel Foucault, iria desenvolver, incluisve, o meu trabalho de mestrado a partir de seus livros, parte da sociologia brasileira recente. Li um pouco de Marx e da literatura marxista. Além de Foucault, um livro que me marcou muito, nesta área de Humanidades, foi Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes.

José Olympio foi responsável pelo lançamento de grandes nomes da nossa literatura. Você busca encontrar bons títulos brasileiros?
Muitos levantam essa polêmica de que a Companhia das Letras não publica autores nacionais etc... Essa questão está incorreta. A editora publica livros nacionais. Tenho um índice de quase 40% de autores nacionais. Como lhe disse, a Companhia de Letras é uma editora voltada a Ciências Humanas e Literatura. Durante um certo período publicamos mais livros ensaísticos do que de ficção.
Acho que uma editora não deve ter uma preocupação nacionalista. O nacionalismo é extremamente perigoso, sério, ainda mais aplicado à cultura. O que é fantástico num texto literário é ele não ter lugar e tempo definidos para atingir o leitor. Você pega, por exemplo, a Odisséia ­ que pertence a todas as épocas ­ e sai enriquecido da leitura, seja ela nacional ou não. Quanto mais um país estiver aberto à vida, às experiências e à criatividade dos escritores do mundo, mais estará apto a desenvolver a sua própria cultura e a produzir um maior número de obras. Acho que um bom autor nacional não precisa de proteção alfandegária porque ele acaba acontecendo, e os editores têm o maior interesse em que eles aconteçam. Não acredito que haja a intenção do editor brasileiro de não descobrir autores nacionais.

Existe interesse por novos autores? É interessantíssimo para o editor brasileiro fazer um novo autor; aliás, este é o papel do editor, o de um interventor cultural. Em abril, nós vamos lançar um autor inédito chamado Milton Hatoum, é um autor da Amazônia, que fez um romance fantástico. Ele ganhou a 1ª bolsa da VITAE que é quase uma premiação e já está fazendo um segundo romance. Estamos lançando um livro dele chamado: Relato de Um Certo Oriente. É um romance extremamente elaborado, com uma carpintaria de texto muito boa. Eu acho que é um autor de grande futuro. Estamos lançando um autor de uma linha completamente diferente do Milton, que é o Diogo Mainardi, um autor mais satírico, um rapaz muito jovem, que mora fora do Brasil. Vamos lançar uma novela dele chamada Malthus, uma novela afinada com o que há de mais moderno na literatura contemporânea. Trata-se de um autor brasileiro, original e divertido. E também vamos lançar uma escritora chamada Ana Miranda, que nos foi recomendada pelo Rubem Fonseca, e cuja leitura me entusiasmou muito. Terminei de ler há uma semana e fui ao Rio dizer a ela que fiquei entusiasmado com a leitura de Boca do Inferno. Esse romance da Ana Miranda tem como personagem central o Gregório de Mattos. É um romance histórico, com uma qualidade literária forte, um romance histórico de alta qualidade. É erudito e saboroso. Estamos relançando o Rubem Fonseca, vamos lançar o Sérgio Sant'Anna, vamos relançar também o Raduan Nassar, que considero um autor de enorme importância, na linhagem do Guimarães Rosa. Teremos o Alberto Dines, com um ensaio extremamente literário, que conta a história do Antonio José da Silva ­ o Judeu, teatrólogo português que foi perseguido pela Inquisição no Brasil. Como vê, a Companhia das Letras está lançando, já a partir de março, muitos autores nacionais. Espero acabar de vez com essa polêmica inútil e continuo achando que o critério de qualidade não passa por ser ou não um autor nacional. O critério é a própria qualidade.

Por fim, o que há de novo na literatura? Acho que o que é novo na literatura é o que foi escrito ontem e será lido amanhã. Só que o meu ontem é o no sentido figurado. Por isso, novo na literatura pode ser a Bíblia que um leitor de Nova York ou Campinas ainda não leu.

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