Entrevista
(23-03-91)


impasse histórico causado pela guerra do Golfo, o insucesso do socialismo, o papel da ecologia, o lugar de Deus em nosso tempo, a questão da violência na História, e os caminhos possíveis para a saída da crise.
Por HERMES RODRIGUES NERY
A Crise do Século XX (Editora Ática), do ensaísta Gilberto de Mello Kujawski, chega à 2ª edição e é adotada na Universidade de Florianópolis. O livro é uma das mais lúcidas análises, no Brasil, da crise do nosso tempo, que, segundo o autor, se manifesta como dificuldade radical em várias ordens: dificuldade de pensar, de optar entre diferentes valores, de decisão moral, política e econômica. Antes de tudo, a crise se manifesta hoje e sempre como dificuldade de viver; e, como a vida é cotidiana, Kujawski começa o enfoque da crise pela ruptura das normas da vida cotidiana.
Curiosamente nos encontramos para esta nossa entrevista num momento em que pesa na Humanidade uma terrível expectativa: o choque de forças numa das regiões mais explosivas do mundo: o Oriente Médio, que deixou o mundo estarrecido nestes últimos meses, com o perigo de uma guerra generalizada. Por que chegamos a este impasse?
Desde o dia 15 de janeiro que a guerra foi um terrível salto no escuro para toda a Humanidade. Você tem razão ao dizer que a guerra se tornou inevitável. Por que chegamos a este impasse? Estou escrevendo um artigo no qual tento responder a essa angustiosa questão. A chave para a compreensão do assunto está na inexistência daquilo que o mundo mais precisa: um poder supranacional instrumentalizado por um direito internacional efetivo, que também não existe. A ONU não exerce o poder supranacional porque este ainda não foi constituído. E não foi constituído porque os diversos Estados se prendem, ainda, ao conceito estrito e estreito de soberania nacional. O poder supranacional exige a repartição do poder entre os Estados, o exercício da soberania compartilhada entre eles, de tal modo que as decisões em comum tenham força para se impor. Essa força será instrumentalizada pelo Direito internacional, o qual não pode existir de fato se continuar a ser um Direito sem sanção, isto é, sem pena a ser executada em caso de não cumprimento, pena que só o poder supranacional pode garantir concretamente. Até que se constituam o poder e o Direito supranacionais, o mundo estará precisando de um país que exerça o papel de política do universo. Esse papel só pode ser desempenhado pela potência mais forte.
Na sua opinião, o que aconteceu com o Socialismo, e o que terá contribuído mais decisivamente para o seu insucesso?
Vou ser muito direto na resposta. A única garantia de êxito do Socialismo, como ideologia, seria o sucesso prático, econômico e social. O Socialismo, onde foi implantado, significou um retrocesso tremendo em todas as ordens. Por isso se desacreditou universalmente. Mas não morreu como ideal. Voltará à carga sempre, mas, se quiser acertar na economia, tem que perder o radicalismo dirigista e abrir-se para a economia de mercado. A tragédia do Socialismo é que não poderá cumprir sua meta distributiva enquanto não acertar seu método de produção, que até hoje é um redondo fracasso. O único sistema de produção competente para produzir em massa e em série e elevar o nível da população em geral é o capitalista. Não é o sistema perfeito, mas, como a democracia, que também não é perfeita, constitui o melhor até agora inventado. Então pergunto: por que insistir no Socialismo, que se provou materialmente improdutivo, em vez de aperfeiçoar o Liberalismo econômico, cujo forte é a capacidade produtiva? Claro que tal "aperfeiçoamento" do Liberalismo exigirá a colaboração do Estado.
Segundo Zbigniev Brzezinski, "o fenômeno comunista representa uma tragédia histórica. Nascido de um idealismo impaciente que rejeitava a injustiça do status quo, buscava uma sociedade melhor e mais humana... mas produziu opressão em massa. Por que as revoluções acabam tomando caminhos diferentes dos idealizados?
Este fenômeno apontado pelo estudioso polonês é o que J. de Maistre estudou sob o nome de "heterogeneidade dos fins", e outros pensadores, inclusive Max Weber, também conheciam sob outros nomes. A política, especialmente as revoluções, costuma atirar no que vê e a acertar no que não vê. As revoluções pregam o novo homem, o amor universal e a felicidade dos povos e só produzem opressão, injustiça e regressão. Por quê? Por insistirem em amoldar a sociedade de um modelo abstrato e geométrico de Estado, o qual, para se impor, exige a total aniquilação da ordem existente até então. Como dizia Ortega, as revoluções decapitam o príncipio, na sua impessoalidade abstrata, é mil vezes mais implacável que qualquer príncipe despótico. Ao que se poderia acrescentar que as revoluções só têm sucesso quando, dialeticamente, devoram-se a si mesmas, como a Revolução Francesa.
No seu livro A Crise do Século XX você afirma que "a crise consiste numa totalidade dinâmica, um circuito integrado pela interação de múltiplos segmentos, não se admitindo que um fator privilegiado economia, política, religião ou qualquer outro responda, isoladamente, pela crise na sua totalidade". Você acha possível o homem se reencontrar, integrar-se com as coisas novamente?
Sim, a crise do século XX não representa senão a própria crise da modernidade, aquele sistema de pensamento e de vida iniciado após o Renascimento. A modernidade entrou em crise porque o homem, à força de crescer tanto e em tantas direções, chegou ao ponto de não saber o que fazer com tanta riqueza nas mãos, com tantas possibilidades criadoras na ciência, na técnica, na economia etc. O homem, que adquiriu na modernidade tantos talentos, não descobriu, ainda, o talento de manipular os seus talentos. Por isso se afoga na própria abundância, entra em crise. A crise consiste na perda do sistema de referências no qual o homem se movia até agora; e se perde a si mesmo. O gênio criador da modernidade foi a razão físico-matemática descoberta do século XVIII por Descartes, Galileu, Leibnitz. Essa forma particular de razão construiu as crenças constitutivas do mundo moderno os Estados nacionais, a ciência, a técnica, o progresso, a revolução. Todas essas crenças constitutivas da modernidade estão comprometidas pelo utopismo intrínseco à razão físico-matemática, utopismo que se propõe a construir um mundo idealmente perfeito pelo método geométrico, sem levar em conta a realidade no que ela tem de circunstancial, de único e de irredutível à interpretação físico-matemática das coisas. Mas a razão físico-matemática é, apenas, uma das formas possíveis da razão. Não há que desesperar da razão, como faz o irracionalismo. A saída para a crise está na constituição e na vigência de outra variedade de razão, que permita conciliar o universal com o circunstancial, e que possibilite ao homem o manejo adequado de todo o sistema operacional e cultural por ela criado nessa forma de vida chamada modernidade, que hoje nos devora sem remissão. A razão utópica deve ceder lugar à razão tópica, não menos razão que a primeira, mas com os pés na terra, fiel à circunstância e à condição histórica da vida humana. Razão que pense com as coisas, e não mais com os conceitos desligados das coisas.
E a questão da ecologia?
A questão da ecologia oscila entre dois extremos. Há os que interpretam a natureza cientificamente, reduzindo-a a meio ambiente, ou seja, a puro objeto. E há os que interpretam a natureza misticamente, em dimensão panteísta, romântica, um abismo no qual o homem se dissolve em busca daquela unidade primitiva. Minha posição é outra. Entendo que a crise consiste, essencialmente, na perda do mundo, do sistema de referências no qual nos apoiamos para viver, e que a ecologia, com seu apelo de respeito e amor pela natureza, pode refazer para nós a imagem do mundo que perdemos. A ecologia pode não ser nem a religião nem a filosofia do futuro, mas ela pode nos ajudar a sair do caos, a partir da reintegração do homem no ecossistema, aquela rede que une estreitamente os seres vivos entre si e com o meio ambiente.
O século XIX foi marcado pelo otimismo, euforia e fé no futuro. O século XX termina com melancólico ceticismo, com perigosa indiferença pelo que aí está. Como encontrar o equilíbrio entre o idealismo e o materialismo, a esperança e a fatalidade?
Em outras palavras, o homem vivia de utopias, no século XIX, e agora desesperou delas. Acredito que podemos conservar as principais utopias da modernidade a razão, a ciência, a técnica, o progresso etc. , mas fazendo outro uso com elas. Tomando-as não mais como portos a que deveremos chegar mas como faróis orientando nossa navegação. As utopias são pontos cardeais funcionando como referências para não nos perdemos, mas não constituem cidades ideiais e perfeitas à nossa espera um dia.
Qual o lugar de Deus no século XX?
Nietzsche já sentenciou que "Deus morreu". Será que o homem se conforma em ficar a sós no universo? Penso que não durante muito tempo. O lugar de Deus no século XX é a esperança, a expectativa de sua ressurreição.
Segundo Fritjof Capra, estamos "vivendo uma profunda mudança em nossa visão do mundo, que passou da concepção mecanicista de Descartes e Newton para uma visão holística e ecológica... semelhante às visões dos místicos de todas as épocas e tradições". Que tipo de "apocalipse" vivemos?
A ciência moderna caracteriza-se por decompor todas as coisas em seus elementos constitutivos, deixando-nos sem as coisas mesmas. Descartes, por exemplo, separa, rigorosamente, a re-extensa da res cogitans, a extensão do pensamento. Em nossos dias, ganha terreno a interpretação psicossomática na Medicina e na Psicologia, segundo a qual psiquismo e corporalidade são indissociáveis, o que pode coincidir com a visão tradicional, pré-científica, que os místicos podem ter conservado, mas que eles não inventaram. Fritjof Capra tem o mérito de ouvir cantar o galo, mas nem sempre sabe onde.
No seu livro Discurso sobre a Violência e outros Temas você afirma que "o mal não sobreveio acidentalmente no mundo; é congênito a ele, marcando-o desde o princípio com sua corrupção, não havendo nenhum bom fundamento para prever que suas raízes serão extirpadas do solo terrestre". A história do homem é marcada pela violência, e o século XX, por ser essencialmente niilista, termina carregado por terríveis atrocidades. Por que existe a barbárie? O que a justifica?
Essa pergunta é típica do humanismo equivocado que corre por aí, esquecido de que até os anjos um dia se revoltaram contra o Criador. Por que existe a barbárie? Porque ela faz parte intrínseca do homem, que já foi definido pela filosofia antiga como um ser essencialmente social, o que só corresponde à meia verdade. O homem é portador, ao mesmo tempo, de impulsos sociais e de tendências anti-sociais. Estas respondem pela criminalidade, pelas violências e pela desumanidade de que o homem é capaz. Para coibi-las existem o Estado, a lei, a polícia, os tribunais, os exércitos. O homem não é, nunca será um ente singelo, formado de uma só peça. Ele é essencialmente dúplice, dividido entre tendências opostas, e sua dificuldade é integrar-se. Todo humanismo que não leve em conta essa duplicidade, essa equivocidade constitutiva do ser humano, é falso. Marx propõe que a causa da corrupção moral é a propriedade privada; que, suprimida esta, o homem já não mais agrediria seu semelhante. Mas o homem não agride só por causa da propriedade privada. A simples existência do outro homem, pelo fato de ser outro, já é suficiente para despertar a agressividade adormecida em nosso sangue. O remédio é fazer o possível para transformar a existência social em coexistência pacífica, mas sem muita ilusão.
Afinal, na sua opinião, o que move a História? Que força é esta que impulsiona o homem a fazer o que faz?
Bela pergunta para o fecho desta entrevista. Creio que o motor da História é este: a liberdade. Liberdade significa a busca incessante de nossa identidade, de nossa verdade como homem e como pessoa individual. Ensina Ortega que o homem, à diferença de outros seres, não tem "identidade constitutiva". Um mineral, um tigre, um peixe foram programados pela natureza para serem o que são e só o que são. O homem, não. Ele não está a priori programado, ele tem que se programar a si mesmo e isso é a liberdade. Ao encarnar, sucessivamente, tantos e tão contraditórios papéis pastor, lavrador, caçador, guerreiro, mago, sacerdote, artista, filósofo, cavaleiro medieval, senhor e escravo, santo e pecador etc. etc. o homem está permanentemente reinventando a História, o argumento da História, na medida em que reinventa sem parar os seus papéis.
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