Universo Online
Web Sites Pessoais
Este é um site de LIVROS PenAzul tem entrevistas, resenhas, crítica e biografias PÁGINA PRONTA - Centro de Criação Editorial e Produção Gráfica

Concurso Literário
REGULAMENTO
INSCRIÇÕES
AGENDA
Registre-se
Sugestões de Leitura
Gêneros
Romance
Crônica
Poesia
Memórias
Pesquisa Histórica
ANTOLOGIA PenAzul
Seleta de M. QUINTANA

SALA DE IMPRENSA
PenAzul Para enviar releases
por e-mail,
clique PenAzul


REVOLUÇÕES

Max Weber
Max Weber

Heterogeneidade dos fins.

Por que as revoluções acabam tomando caminhos diferentes dos idealizados?
Este fenômeno apontado pelo estudioso polonês (Zbigniev Brzezinski) é o que J. de Maistre estudou sob o nome de "heterogeneidade dos fins", e outros pensadores, inclusive Max Weber, também conheciam sob outros nomes. ...As revoluções pregam o novo homem, o amor universal e a felicidade dos povos e só produzem opressão, injustiça e regressão. Por quê? Por insistirem em amoldar a sociedade de um modelo abstrato e geométrico de Estado, o qual, para se impor, exige a total aniquilação da ordem existente até então.


O LUGAR DE DEUS
Nietzsche
Nietzsche

"Deus morreu"

Qual o lugar de Deus no século XX?
Nietzsche já sentenciou que "Deus morreu". Será que o homem se conforma em ficar a sós no universo? Penso que não durante muito tempo. O lugar de Deus no século XX é a esperança, a expectativa de sua ressurreição.


MODERNIDADE
Descartes
Descartes

Gênio criador


O gênio criador da modernidade foi a razão físico-matemática descoberta do século XVIII por Descartes, Galileu, Leibnizz. Essa forma particular de razão construiu as crenças constitutivas do mundo moderno ­ os Estados nacionais, a ciência, a técnica, o progresso, a revolução.


AGRESSIVIDADE
Karl Marx
Marx

O homem não agride só por causa da propriedade privada


Marx propõe que a causa da corrupção moral é a propriedade privada; que, suprimida esta, o homem já não mais agrediria seu semelhante. Mas o homem não agride só por causa da propriedade privada. A simples existência do outro homem, pelo fato de ser outro, já é suficiente para despertar a agressividade adormecida em nosso sangue. O remédio é fazer o possível para transformar a existência social em coexistência pacífica, mas sem muita ilusão.



DIFERENTEOrtega
Ortega

O homem programa-se a si mesmo
Ensina Ortega que o homem, à diferença de outros seres, não tem "identidade constitutiva". Um mineral, um tigre, um peixe foram programados pela natureza para serem o que são e só o que são. O homem, não. Ele não está a priori programado, ele tem que se programar a si mesmo e isso é a liberdade.


Entrevista

(23-03-91) Título: Kujawski - A Dificuldade de Viver
Foto do ensaísta Gilberto de Mello Kujawski
O impasse histórico causado pela guerra do Golfo, o insucesso do socialismo, o papel da ecologia, o lugar de Deus em nosso tempo, a questão da violência na História, e os caminhos possíveis para a saída da crise.

Por HERMES RODRIGUES NERY

A Crise do Século XX (Editora Ática), do ensaísta Gilberto de Mello Kujawski, chega à 2ª edição e é adotada na Universidade de Florianópolis. O livro é uma das mais lúcidas análises, no Brasil, da crise do nosso tempo, que, segundo o autor, se manifesta como dificuldade radical em várias ordens: dificuldade de pensar, de optar entre diferentes valores, de decisão moral, política e econômica. Antes de tudo, a crise se manifesta hoje e sempre como dificuldade de viver; e, como a vida é cotidiana, Kujawski começa o enfoque da crise pela ruptura das normas da vida cotidiana.

Curiosamente nos encontramos para esta nossa entrevista num momento em que pesa na Humanidade uma terrível expectativa: o choque de forças numa das regiões mais explosivas do mundo: o Oriente Médio, que deixou o mundo estarrecido nestes últimos meses, com o perigo de uma guerra generalizada. Por que chegamos a este impasse? Desde o dia 15 de janeiro que a guerra foi um terrível salto no escuro para toda a Humanidade. Você tem razão ao dizer que a guerra se tornou inevitável. Por que chegamos a este impasse? Estou escrevendo um artigo no qual tento responder a essa angustiosa questão. A chave para a compreensão do assunto está na inexistência daquilo que o mundo mais precisa: um poder supranacional instrumentalizado por um direito internacional efetivo, que também não existe. A ONU não exerce o poder supranacional porque este ainda não foi constituído. E não foi constituído porque os diversos Estados se prendem, ainda, ao conceito estrito e estreito de soberania nacional. O poder supranacional exige a repartição do poder entre os Estados, o exercício da soberania compartilhada entre eles, de tal modo que as decisões em comum tenham força para se impor. Essa força será instrumentalizada pelo Direito internacional, o qual não pode existir de fato se continuar a ser um Direito sem sanção, isto é, sem pena a ser executada em caso de não cumprimento, pena que só o poder supranacional pode garantir concretamente. Até que se constituam o poder e o Direito supranacionais, o mundo estará precisando de um país que exerça o papel de política do universo. Esse papel só pode ser desempenhado pela potência mais forte.

Na sua opinião, o que aconteceu com o Socialismo, e o que terá contribuído mais decisivamente para o seu insucesso? Vou ser muito direto na resposta. A única garantia de êxito do Socialismo, como ideologia, seria o sucesso prático, econômico e social. O Socialismo, onde foi implantado, significou um retrocesso tremendo em todas as ordens. Por isso se desacreditou universalmente. Mas não morreu como ideal. Voltará à carga sempre, mas, se quiser acertar na economia, tem que perder o radicalismo dirigista e abrir-se para a economia de mercado. A tragédia do Socialismo é que não poderá cumprir sua meta distributiva enquanto não acertar seu método de produção, que até hoje é um redondo fracasso. O único sistema de produção competente para produzir em massa e em série e elevar o nível da população em geral é o capitalista. Não é o sistema perfeito, mas, como a democracia, que também não é perfeita, constitui o melhor até agora inventado. Então pergunto: por que insistir no Socialismo, que se provou materialmente improdutivo, em vez de aperfeiçoar o Liberalismo econômico, cujo forte é a capacidade produtiva? Claro que tal "aperfeiçoamento" do Liberalismo exigirá a colaboração do Estado.

Segundo Zbigniev Brzezinski, "o fenômeno comunista representa uma tragédia histórica. Nascido de um idealismo impaciente que rejeitava a injustiça do status quo, buscava uma sociedade melhor e mais humana... mas produziu opressão em massa. Por que as revoluções acabam tomando caminhos diferentes dos idealizados? Este fenômeno apontado pelo estudioso polonês é o que J. de Maistre estudou sob o nome de "heterogeneidade dos fins", e outros pensadores, inclusive Max Weber, também conheciam sob outros nomes. A política, especialmente as revoluções, costuma atirar no que vê e a acertar no que não vê. As revoluções pregam o novo homem, o amor universal e a felicidade dos povos e só produzem opressão, injustiça e regressão. Por quê? Por insistirem em amoldar a sociedade de um modelo abstrato e geométrico de Estado, o qual, para se impor, exige a total aniquilação da ordem existente até então. Como dizia Ortega, as revoluções decapitam o príncipio, na sua impessoalidade abstrata, é mil vezes mais implacável que qualquer príncipe despótico. Ao que se poderia acrescentar que as revoluções só têm sucesso quando, dialeticamente, devoram-se a si mesmas, como a Revolução Francesa.

No seu livro A Crise do Século XX você afirma que "a crise consiste numa totalidade dinâmica, um circuito integrado pela interação de múltiplos segmentos, não se admitindo que um fator privilegiado ­ economia, política, religião ou qualquer outro ­ responda, isoladamente, pela crise na sua totalidade". Você acha possível o homem se reencontrar, integrar-se com as coisas novamente? Sim, a crise do século XX não representa senão a própria crise da modernidade, aquele sistema de pensamento e de vida iniciado após o Renascimento. A modernidade entrou em crise porque o homem, à força de crescer tanto e em tantas direções, chegou ao ponto de não saber o que fazer com tanta riqueza nas mãos, com tantas possibilidades criadoras na ciência, na técnica, na economia etc. O homem, que adquiriu na modernidade tantos talentos, não descobriu, ainda, o talento de manipular os seus talentos. Por isso se afoga na própria abundância, entra em crise. A crise consiste na perda do sistema de referências no qual o homem se movia até agora; e se perde a si mesmo. O gênio criador da modernidade foi a razão físico-matemática descoberta do século XVIII por Descartes, Galileu, Leibnitz. Essa forma particular de razão construiu as crenças constitutivas do mundo moderno ­ os Estados nacionais, a ciência, a técnica, o progresso, a revolução. Todas essas crenças constitutivas da modernidade estão comprometidas pelo utopismo intrínseco à razão físico-matemática, utopismo que se propõe a construir um mundo idealmente perfeito pelo método geométrico, sem levar em conta a realidade no que ela tem de circunstancial, de único e de irredutível à interpretação físico-matemática das coisas. Mas a razão físico-matemática é, apenas, uma das formas possíveis da razão. Não há que desesperar da razão, como faz o irracionalismo. A saída para a crise está na constituição e na vigência de outra variedade de razão, que permita conciliar o universal com o circunstancial, e que possibilite ao homem o manejo adequado de todo o sistema operacional e cultural por ela criado nessa forma de vida chamada modernidade, que hoje nos devora sem remissão. A razão utópica deve ceder lugar à razão tópica, não menos razão que a primeira, mas com os pés na terra, fiel à circunstância e à condição histórica da vida humana. Razão que pense com as coisas, e não mais com os conceitos desligados das coisas.

E a questão da ecologia? A questão da ecologia oscila entre dois extremos. Há os que interpretam a natureza cientificamente, reduzindo-a a meio ambiente, ou seja, a puro objeto. E há os que interpretam a natureza misticamente, em dimensão panteísta, romântica, um abismo no qual o homem se dissolve em busca daquela unidade primitiva. Minha posição é outra. Entendo que a crise consiste, essencialmente, na perda do mundo, do sistema de referências no qual nos apoiamos para viver, e que a ecologia, com seu apelo de respeito e amor pela natureza, pode refazer para nós a imagem do mundo que perdemos. A ecologia pode não ser nem a religião nem a filosofia do futuro, mas ela pode nos ajudar a sair do caos, a partir da reintegração do homem no ecossistema, aquela rede que une estreitamente os seres vivos entre si e com o meio ambiente.

O século XIX foi marcado pelo otimismo, euforia e fé no futuro. O século XX termina com melancólico ceticismo, com perigosa indiferença pelo que aí está. Como encontrar o equilíbrio entre o idealismo e o materialismo, a esperança e a fatalidade?
Em outras palavras, o homem vivia de utopias, no século XIX, e agora desesperou delas. Acredito que podemos conservar as principais utopias da modernidade ­ a razão, a ciência, a técnica, o progresso etc. ­, mas fazendo outro uso com elas. Tomando-as não mais como portos a que deveremos chegar mas como faróis orientando nossa navegação. As utopias são pontos cardeais funcionando como referências para não nos perdemos, mas não constituem cidades ideiais e perfeitas à nossa espera um dia.

Qual o lugar de Deus no século XX?
Nietzsche já sentenciou que "Deus morreu". Será que o homem se conforma em ficar a sós no universo? Penso que não durante muito tempo. O lugar de Deus no século XX é a esperança, a expectativa de sua ressurreição.

Segundo Fritjof Capra, estamos "vivendo uma profunda mudança em nossa visão do mundo, que passou da concepção mecanicista de Descartes e Newton para uma visão holística e ecológica... semelhante às visões dos místicos de todas as épocas e tradições". Que tipo de "apocalipse" vivemos? A ciência moderna caracteriza-se por decompor todas as coisas em seus elementos constitutivos, deixando-nos sem as coisas mesmas. Descartes, por exemplo, separa, rigorosamente, a re-extensa da res cogitans, a extensão do pensamento. Em nossos dias, ganha terreno a interpretação psicossomática na Medicina e na Psicologia, segundo a qual psiquismo e corporalidade são indissociáveis, o que pode coincidir com a visão tradicional, pré-científica, que os místicos podem ter conservado, mas que eles não inventaram. Fritjof Capra tem o mérito de ouvir cantar o galo, mas nem sempre sabe onde.

No seu livro Discurso sobre a Violência e outros Temas você afirma que "o mal não sobreveio acidentalmente no mundo; é congênito a ele, marcando-o desde o princípio com sua corrupção, não havendo nenhum bom fundamento para prever que suas raízes serão extirpadas do solo terrestre". A história do homem é marcada pela violência, e o século XX, por ser essencialmente niilista, termina carregado por terríveis atrocidades. Por que existe a barbárie? O que a justifica? Essa pergunta é típica do humanismo equivocado que corre por aí, esquecido de que até os anjos um dia se revoltaram contra o Criador. Por que existe a barbárie? Porque ela faz parte intrínseca do homem, que já foi definido pela filosofia antiga como um ser essencialmente social, o que só corresponde à meia verdade. O homem é portador, ao mesmo tempo, de impulsos sociais e de tendências anti-sociais. Estas respondem pela criminalidade, pelas violências e pela desumanidade de que o homem é capaz. Para coibi-las existem o Estado, a lei, a polícia, os tribunais, os exércitos. O homem não é, nunca será um ente singelo, formado de uma só peça. Ele é essencialmente dúplice, dividido entre tendências opostas, e sua dificuldade é integrar-se. Todo humanismo que não leve em conta essa duplicidade, essa equivocidade constitutiva do ser humano, é falso. Marx propõe que a causa da corrupção moral é a propriedade privada; que, suprimida esta, o homem já não mais agrediria seu semelhante. Mas o homem não agride só por causa da propriedade privada. A simples existência do outro homem, pelo fato de ser outro, já é suficiente para despertar a agressividade adormecida em nosso sangue. O remédio é fazer o possível para transformar a existência social em coexistência pacífica, mas sem muita ilusão.

Afinal, na sua opinião, o que move a História? Que força é esta que impulsiona o homem a fazer o que faz? Bela pergunta para o fecho desta entrevista. Creio que o motor da História é este: a liberdade. Liberdade significa a busca incessante de nossa identidade, de nossa verdade como homem e como pessoa individual. Ensina Ortega que o homem, à diferença de outros seres, não tem "identidade constitutiva". Um mineral, um tigre, um peixe foram programados pela natureza para serem o que são e só o que são. O homem, não. Ele não está a priori programado, ele tem que se programar a si mesmo e isso é a liberdade. Ao encarnar, sucessivamente, tantos e tão contraditórios papéis ­ pastor, lavrador, caçador, guerreiro, mago, sacerdote, artista, filósofo, cavaleiro medieval, senhor e escravo, santo e pecador etc. etc. ­ o homem está permanentemente reinventando a História, o argumento da História, na medida em que reinventa sem parar os seus papéis.

SALA DE IMPRENSA SALA DE IMPRENSA