XVII
Por Mário Quintana
Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram.
Foram levando qualquer coisa minha...
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada...
Como o único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! desta mão, avaramene adunca.
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!
Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai.
A luz do morto não se apaga nunca!
Do livro "Poesias"
O BAÚ
Por Mário Quintana
Como estranhas lembranças de outras vidas,
que outros viveram num estranho mundo,
quantas coisas perdidas e esquecidas
no teu baú de espantos... Bem no fundo.
uma boneca toda estraçalhada!
(isto não são brinquedos de menino...
alguma coisa deve estar errada)
mas o teu coração em desatino
te traz de súbito uma idéia louca:
é ela. sim! Só pode ser aquela,
a jamais esquecida Bem-Amada.
E em vão tentas lembrar o nome dela...
e em vão ela te fita... e a sua boca
tenta sorrir-te mas está quebrada!
Do livro "Esconderijos do Tempo"
A OFERENDA
Por Mário Quintana
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.
Do livro "Esconderijos do Tempo"
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O POEMA
Por Mário Quintana
Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida
pra sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua
misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
ferido de mortal beleza.
"Todos esses que aí vão
atravancando meu caminho
eles passarão, eu passarinho."
Do livro "Poesias"
O ADOLESCENTE
Por Mário Quintana
A vida é tão bela que chega a dar medo.
Não o medo que paralisa e gela,
estátua súbita, mas esse
medo fascinante e fremente de curiosidade que
faz o jovem felino seguir para a frente farejando
o vento ao sair, a primeira vez, da gruta.
Medo que ofusca: luz!
Cumplicemente,
as folhas contam-te um segredo
velho como o mundo:
Adolescente, olha! A vida é nova...
A vida é nova e anda nua
vestida apenas com o teu desejo!
Do livro "Apontamento de História Sobrenatural"
Canção Azul
Por Mário Quintana
Triste, Poeta, triste a florinha azul que sem querer
(pisaste no teu caminho...
Miosótis, disseste, inclinado um instante sobre ela.
E ela acabou de morrer, aos poucos, dentre a relva úmida.
sem nunca ter sabido que se chamava miosótis.
Nem que iria impregnar, com o seu triste encanto,
O teu poema daquele dia...
Do livro "Canções"
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