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Interrogando a vida
Confinados numa estranha cabine, três representantes dos deserdados da utopia -um bailarino que fala e se expressa com o corpo, um rebelde solitário e perfeccionista e uma encantadora mulher que, delicada e mansamente, vai revelando sua emoção- trocam carícias e agressões numa tensa e dilacerada sinfonia, marcada pela descoberta da dúvida e da incerteza.
Caldas estreou com Tirando o Capuz,livro de memórias da guerrilha urbana, que se transformou num best-seller e integrou a lista dos mais vendidos entre os anos 1980/81. Com o Balé da Utopia,lançamento da Editora Objetiva, o que lhe interessa, como ficcionista, não é mais a opção política de seus personagens, mas sim a "teia afetiva e sensorial que os liga, sua vivência psicológica e humana, a dilacerada sensação de irrealidade que acompanha a perda de suas ilusões no universo subterrâneo em que se encontravam encurralados."
Álvaro Caldas trabalhou em quase todas as redações de jornais do Rio. Fez imprensa estudantil no jornal Movimento, da UNE, passou pelo Globoe Jornal do Brasil,onde chegou a repórter especial, antes de ser preso, no início dos anos 70, como militante de uma organização que defendia a luta armada para a derrubada da ditadura militar. De volta à liberdade, dois anos e meio depois, trabalhou no Jornal dos Sports, sucursais do Estado de S. Paulo, DCI e Folha de S. Paulo, Última Hora, Tribuna da Imprensa, TV Globo e grande parte dos jornais da chamada imprensa alternativa. A partir de 86 afastou-se da imprensa diária para trabalhar por própria "conta e risco", com a criação da Tiro de Letras, empresa de editoria e serviços jornalísticos.
Nesta entrevista, ele fala de seu livro Balé da Utopia:
om o Balé da Utopia,o jornalista e escritor Álvaro Caldas fez a sua estréia como romancista. Numa narrativa surpreendente em que se fundem o político e o afetivo, ambientada nos anos da ditadura militar e da repressão aos movimentos clandestinos no Brasil, o autor busca resgatar os sonhos de uma geração que teve o seus destino pessoal alterado pelo vento forte da História.
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Como lhe ocorreu a idéia do romance?
Como se deu o processo de criação do Balé?
Mas por que um bailarino nesta história?
Você diz que o livro não é político, mas toda a sua armação está ligada a um acontecimento políticoŠ
Podemos pensar que existe uma saída? O romance aponta alguma conclusão?
a verdade, sempre quis fazer ficção. Acontece que duas paixões me desviaram do caminho. Duas paixões vividas com muita intensidade, que me consumiram mas certamente trouxeram aprendizado e substância para o que pretendia um dia fazer. O jornalismo e a política, no caso, a utopia revolucionária. Quando pude me ver livre de ambas, senti que era a hora de me dedicar ao que queria. Dependia de mim, de minha disciplina, de minha entrega. E é claro que tudo o que aprendi como jornalista e tudo o que vivi como militante teriam que vir à tona. E depois já tinha o Capuz, um livro de sucesso, e a cobrança dos amigos, que esperavam mais de mim. E eu também.
Comecei a trabalhar no romance há cerca de dez anos. Com mais de 200 laudas escritas, aproveitando as férias e as folgas do dia-a-dia, deixei o texto "descansar" durante algum tempo. Não queria nem olhar, já desconfiado que aquilo não estava bom. Quando finalmente criei coragem para rever, constatei que o texto estava muito cru, realista demais. Rasguei e joguei tudo fora, aproveitando apenas uma situação dramática que serviu de núcleo para a nova trama, narrada por Cristiana, personagem feminino que desfruta de uma grande liberdade e autonomia. Neste núcleo central, os três personagens principais, o bailarino encapuzado, Cristiana e Santiago estão confinados numa estranha cabine, que na verdade é um apartamento da Zona Sul do Rio, num dentre tantos episódios surrealistas vividos durante o tempo da clandestinidade. Mas agora não é mais a guerrilha que me interessa. Ela é apenas um pretexto para desencadear uma ação de alta dramaticidade e emoção.
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Sim, esta é uma questão importante, que mudou o próprio sentido da narrativa. Considero o bailarino, com sua ambivalência e seu mistério, um personagem capaz de exercer um grande fascínio sobre o leitor. Eu não queria um sociólogo, um advogado, um jornalista, como eram em sua maioria os militantes. Quando me defini por um bailarino e ainda não sabia como compô-lo, encontrei casualmente na Feira do Livro, na Cinelândia, um livro chamado "História da Dança", de Maribel Portinari. Foi então que descobri o russo Nijinski, o maior bailarino deste século. O alado e transgressor Nijinski da Sagração da Primavera, que parou de dançar aos 30 anos e morreu louco aos 60, transformou-se numa paixão que arrastou o bailarino que o encarna no Balé da Utopia.
Trata-se de uma circunstância, digamos. O romance, em sua definição clássica, é uma interrogação sobre a existência, vista através de personagens imaginários. O autor, que não o de best-sellers de consumo imediato, procura trabalhar em dois planos, combinando a ação com seus temas preferidos. São estes temas que dão densidade à narrativa. Meu tema preferido no Balé é uma metáfora sobre a Sagração da Primavera, momento de consagração vivido por Nijinsky, que o bailarino imagina coreografar num mistura mágica de mitologia pagã russa com os personagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Balé este que vai se tornando dolorosamente inatingível e inalcançável. Se você quiser a extrema concisão de um título de jornal, podemos dizer que o romance retrata a falência da utopia revolucionária, tema aliás muito atual e incômodo. Confinados naquela cabine, Cristiana, Santiago, o bailarino e os demais personagens reais e sonhados, vivem uma estranha sensação de irrealidade que acompanha a perda de suas ilusões. Encurralados pelo impasse, trocam agressões e carícias, na busca ansiosa de saídas anunciadoras de novas possibilidades. Agora, se você quiser brincar um pouco de pensar num título para um jornal popular, já mes sugeriram: "Cristiana trai Santiago com um bailarino encapuzado."
Não, não existe uma saída única, excludente. Existem saídas, claro, e estamos todos à procura delas. É desta busca que se tece a ação romanesca. O autor não deve estar preocupado em apresentar conclusões, sob pena de falsear sua obra. Ele interroga. No caso, o que me interessa é interrogar o destino desta geração, ou melhor, a trajetória seguida por cada um individualmente, simbolizada neste ou naquele personagem. O que me interessa é explorar o sentimento do homem em confronto com sua maldição, sem a cobertura de uma organização política, sem a proteção de uma ideologia, descobrindo a espantosa simbiose entre o mal e o bem. Este é o tema do romance que, se aponta um saída, esta é a transgressora porta aberta para a arte, que não tem compromissos com a realidade. À parte disso, acho que o Balé busca também resgatar um pedaço da história recente do país, seus valores, sua ética, seus mitos. O mito da rebeldia, principalmente. Neste final de século, vida e arte andaram se misturando, e a História cedeu parte de sua autoridade passada à ficção. Precisamos de mais livros, de mais filmes, de mais peças que tenham como tema estes tempos sombrios.
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