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Entrevista

15/08/2000

Os filmes apenas sonhados de Fernando Monteiro


Sala de Imprensa PenAzul

"A realidade é uma grande ficção que nos derrota a todos"

1 - Você é poeta, cineasta, ensaísta. Mas até agora, apesar de também ser autor de ficção (teatro), não havia estreado com narrativa mais larga e ambiciosa. Por quê? Suponho que escreve contos desde muito cedo, não é verdade? Começando pelo fim da pergunta, devo confessar que eu nunca tive muita simpatia pelo conto. Nas minhas primeiras experiências literárias, fui atraído para o romance (era uma sedução da época, vinda do prestígio cultural e social dos romancistas) e, em 1969, escrevi uma novela - "Como Visões de Arcturo" - da qual Octávio de Faria, o romancista da "Tragédia Burguesa", gostou muito. Apesar disso, eu destruí as duas ou três cópias datilográficas, insatisfeito com a novela - embora conserve, até hoje, as apreciações generosas escritas por Octávio, Leônidas Câmara e outros. Comecei, portanto, pela prosa - e a minha ficção (à qual voltei em 1995) não é, creio, a de um "contista", no sentido estrito. Minhas narrativas atuais assumem o tamanho do seu assunto, da sua técnica e da sua intenção, e as de Aspades, note, estão interligadas em "trama", num jogo de simulacros, de espelhos duplicados em filme & narrativa, realidade e ficção.

2 - Como nasceu Aspades, Ets, Etc? Em outubro de 1995, num sábado, sentei diante do micro e comecei a escrever sobre uma pessoa fictícia, um português, cineasta, intelectual - assim como se iniciasse um ensaio sobre Antonioni, Resnais, Manuel de Oliveira... Vi o homem, claramente: podia dizer onde tinha nascido, como penteava o cabelo com a mão espalmada... e logo estavam vindo os títulos de alguns dos seus filmes. Escrevi 22 laudas nesse primeiro sábado - e, como estava estreando no manejo do computador, acionei algum comando errado e se apagaram 22 páginas já escritas. Fiquei desesperado, entrei em pânico. E resolvi desistir da história, perdida, do cineasta fictício. No sábado seguinte, no entanto, sentei de novo diante do micro, e, aí, mudando completamente o tom que havia usado na primeira tentativa, refiz um caminho de pedras, sem nada da sensação estranha daquelas 22 páginas escritas sem quase levantar da cadeira. Reencontrei o cineasta Vasco Aspades pelo caminho pedregoso do esforço cerebral e consciente, e ele foi voltando a tomar corpo diante de mim, eu sinceramente acreditando na sua vida, nos seus motivos e idéias sobre os filmes e a vida.

3 - Quem é Vasco Aspades do Carmo? É uma boa pergunta. Quem será ele? Irá existir, ainda, num futuro que eu talvez tenha anunciado por descuido, confundindo-o com o passado (que ninguém pode recuperar)? Não sei quem é Vasco Aspades. Não importa que me acreditem ou não, mas ainda agora, quando eu folheio o livro por mim escrito, penso nele como numa pessoa - completa, real. E gostaria de ver os filmes que inventei para sua filmografia (talvez eu sonhe com eles e, acordado, já não me recorde do que vi), ou conversar com esse português que - acredite - para mim vive por si próprio, dentro do livro.

4 - O que há na sua ficção de realidade visível é uma remissão ao cinema que você pratica? Não creio. Olhe, de certa forma o cinema é uma arte "da superfície". Ninguém jamais poderá filmar o Ulisses, de Joyce (um cineasta americano de vanguarda - Joseph Strick - tentou e se deu muito mal), pois o cinema se confina nos limites do icônico, da representação do visível. No livro, entretanto, eu tentei "imaginar" filmes apenas sonhados (os melhores, no dizer de Rosselini), com os poderes estranhos do sono, que dispensa a câmera...

5 - E as demais narrativas de Aspades? São cinco, no total (uma delas, "atribuída" a Vasco Aspades). E tratam do Brasil, do Malwi (que não existe), do território-de-ninguém dos aeroportos internacionais, dos "ets" que perseguimos como se fossem projeções do passado confundido com o futuro...

6 - Alguma, remanescente do "realismo fantástico"? R - Nenhuma. Pelo contrário: eu quis (eu sempre quero) passar uma sensação alucinantemente real, se possível. Cheguei a pensar em publicar "Postenebras" (a parte relativa ao cineasta etc) inclusive com fotografias - falsas fotografias - de cenas dos supostos filmes de Vasco Aspades, de modo que o leitor fosse "iludido", pensando tratar-se de obras reais, de algum cineasta ignorado.
Num certo momento, desisti de radicalizar desse modo a experiência do Aspades - até porque seria muito difícil (aí sim) editar o livro nesse formato de total (e radical) experiência com o texto como simulacro. Porque essa é a chave de livro todo: o simulacro.

7 - Sua narrativa não narra simplesmente, é uma narrativa reflexiva, um texto que reflete sobre si mesmo, a arte, o mundo, a vida, os personagens, e também sobre o que a narrativa suscita. Você acha que simplesmente contar uma história não é o suficiente? Ou acha que a ficção é apenas uma desculpa ou fio condutor para reflexões mais importantes? As duas coisas. Claro que já não basta contar uma história, por exemplo a história do atropelamento de uma falsa marquesa, na Avenida Rio Branco, às cinco horas da tarde... Ao mesmo tempo, a vertente desbravada por Laurence Sterne hoje se oferece em experimento aberto à sofisticação "pós-moderna" - na qual herdamos os modelos precedentes para fazê-los falar pela estrutura, revelar-se na dobra da escrita onde a consciência imprimiu sua marca na água. Somos os escritores que passeiam por cima da superfície de espelho do lago... os que são conscientes. Os outros, ingênuos, escrevem ainda sobre o funcionário público aposentado que sonha em comer a vizinha do lado. Isso não interessa - é claro - a mais ninguém.

8 - Em sua narrativa você fala de fatos passados, fatos que estão acontecendo e até antecipa fatos que irão ocorrer, numa espécie de multiplicação das visões e tempos. Faz referências a fatos e pessoas reais e os mistura com obras e fatos inventados. Você acredita que a realidade também é uma ficção? A realidade é, de fato, uma grande ficção - que nos derrota a todos, como criadores. Dela, eu uso o factual, o "real" como uma "grade", uma estrutura capaz de galvanizar o fictício, o "falso" - e o resultado é um jogo de verossimilhança e de tensão que encaro como a sedução possível de atuar, ainda, sobre a imaginação dos leitores.

9 - Seu personagem é um cineasta. É um alter-ego? Você deixou de fazer cinema? Não, Vasco Aspades não é um alter ego. Sim, deixei de fazer cinema. Todo o meu tempo é pouco para escrever - antes que desapareçam os últimos leitores da terra.

10 - Quais são as suas maiores influências como escritor? Minhas influências (antigas) são "O Livro dos Mortos", Melville, Conrad e Joyce. Depois, veio a leitura dos italianos (estudei cinema em Roma) - Svevo, Pavese, Vittorini, Calvino - os poetas gregos modernos (Seferis, Elytis), a tensão entre a tradição e a modernidade, T. S. Eliot e Pound - que ninguém pode evitar. Curiosamente, não sou um leitor de Jorge Luís Borges, não me deixo levar por seus "portais" (alguém já disse que ele escreveu só os "portais" de magníficas narrativas)...

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