
O clima sufocante dos anos 70 e um estranho triângulo amoroso
Por ALCIONE ARAÚJOÁlvaro Caldas comenta, de modo brilhante, o sonho impossível de seus personagens
ó um ex-militante da luta armada, com generosidade mas sem complacência, poderia recriar, numa obra literária, com verdade humana, profundidade analítica e imaginação, a vida, sufocante e sobressaltada, dos guerrilheiros urbanos nos exíguos apartamentos, os aparelhos, onde se escondiam, por tempo indeterminado, da perseguição brutal e implacável da repressão, no início dos anos setenta. Álvaro Caldas, não sucumbiu à camisa-de-força do realismo, que o cingiria ao relato de prisões, torturas e matanças. Seu romance, Balé da Utopia, arrisca o vôo mais alto, da verdadeira criação ficcional, voltada para os sonhos e desejos, as paixões e as ilusões, a angústia e o desespero das suas três personagens que, emparedadas em nome do projeto histórico de destruir uma ordem social iníqua, gastam a vida na absurda expectativa de que cada novo dia aproxime a realidade da utopia.
Enquanto lá fora não há mais lei nem justiça, não há mais processos nem interrogatórios, até mesmo a tortura desaparecera, substituída pelo puro e simples extermínio, as enclausuradas personagens, numa crítica tardia à aventura em que se meteram, tomam o aparelho como a cabine de um trem imaginário deslocando-se como um bólido para um destino ignorado - Rumo à Estação Finlândia, diria Edmund Wilson, autor de homônima história das idéias sociais.
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Com implacável brilho, Caldas comenta o sonho de suas criaturas "à semelhança do poeta, que procura o mais alto grau de rigor e beleza na composição de seus versos, o ideal visionário que eles almejavam atingir era a busca da perfeição no plano social. A sociedade era o poema que eles tinham em mãos para modelar, trabalhando com a perícia de um artista que só se contenta com a obra única e isenta de qualquer defeito".
Como a clandestinidade impõe o uso de codinomes, falsas profissões, aparências e atitudes teatrais, a narrativa estabelece um jogo de metáforas e representações. Foi para poupar sua companheira Cristiana de poder identificar o recém-chegado, e isso vir um dia a comprometê-la, que Santiago lhe impõe o uso permanente de um capuz, enquanto compartilhar o aparelho do casal. Liderança ativa, sempre envolvido em ações externas, Santiago enseja os longos dias de ócio que aproximam Cristiana e o encapuzado.
O desconcertante personagem de capuz é um eficiente instrumento criado pelo autor. Invoca a visão arquetípica do guerrilheiro, instaura o triângulo amoroso e, por ser um artista, dá organicidade à metáfora que, alçada a título do romance, ganha foros de reavaliação crítica de fatos históricos. Guerrilheiro, o encapuzado é bailarino no Balé da Utopia.
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Pelos cômodos do exíguo aparelho, ele dança e narra a histórica apresentação do Pássaro de fogo, de Stravinski, estrelada por Nijinski - ambos da terra onde a utopia tentava ser realidade - uma recriação da lenda de um pássaro que enfrenta os poderosos em nome da justiça. Delirante, planeja para quando o trem chegar ao seu destino, uma Sagração da Primavera na Terra do Sol, com Deus, o Diabo, o cangaço, Corisco, Antônio das Mortes, padres, coronéis e beatos, tão libertadora quanto a que ''em 1917, o coreógrafo e bailarino Vladimir Ilich, o Volodia, que já vinha ensaiando com tenacidade sua apresentação desde 1905, estremece a terra russa e toma de assalto o Palácio de Inverno com a triunfal apresentação do Balé Bolchevique, dançado por marinheiros, cossacos, operários, soldados e camponeses." E a grande metáfora se expõe como uma alegoria. A luta armada é o balé da utopia. Uma coreografia de ritual religioso. Com final previsível.
Tomados por silenciosa e interdita paixão, Cristiana e o encapuzado repensam valores como o dever, fidelidade, amor, gratidão. Presas da lógica radical, Santiago e o encapuzado discordam sobre a forma ideal de organizar o mundo. Com o tempo os versos de um não mais se combinam com a inspiração do outro, e o poema foi se tornando inatingível e excludente". Instala-se a luta interna. O fracasso se insinua pelas frestas do aparelho. Onde está a saída?
A visão épica da luta armada no Brasil ainda espera por um novo Euclides, um Guimarães Rosa ou um Graciliano. Balé da Utopia é uma de suas sensíveis feições poético-otimistas.
ALCIONE ARAÚJO é roteirista e dramaturgo
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