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Balé da Utopia
Autor: Álvaro Caldas
Editora Objetiva
(021) 205.7824
136 páginas
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Um romance belo, vigoroso e delicado ao mesmo tempo
Por CAIO FERNANDO DE ABREU
Escritor
ecebi um pacote pequeno pelo correio. Dentro, um livro, Balé da Utopia, de Álvaro Caldas ‹ e uma carta deliciosa do autor. Depois de sugerir que Lolita Torres talvez fosse uma agente secreta, uma espiã dos tempos da guerra fria, Caldas lembra outra crônica minha, do início deste ano, falando do desprestígio do escritor brasileiro e lançando modestíssima campanha: "Leia um escritor brasileiro este ano". Você já leu? pergunto eu, e duvi-dê-o-dó do seu "sim". Pois eu, agora já li.
Balé da Utopia é um romance curtinho, 134 páginas, mas tão densas e bem trabalhadas que parecem 300. Foi publicado pela Editora Objetiva do Rio de Janeiro no final de 1993, e traz duas apresentações respeitáveis de Ivo Barbieri, professor de literatura da Uerj e de João Antônio, o maravilhoso e esquecido autor de Malagueta, Perus e Bacanaço. O autor Álvaro Caldas é um goiano de 56 anos, radicado no Rio, jornalista com passagem por meia imprensa brasileira e autor de outro livro publicado no início dos anos 80 - Tirando o Capuz -, "memórias da guerrilha urbana".
E foi essa informação que me deixou aterrorizado e cheio de preconceitos fatais, irracionais: ah não, literatura poncho & conga de novo, não, lá vem clichê anos 70, caipirinha, molotov e pau-de-arara: não sou obrigado! Ficamos todos muito traumatizados por certo tipo de literatura oportunista abundante nos 70, quando o principal crédito dos autores era "eles foram torturados".
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A gente se engana, às vezes. E Balé da Utopia me surpreendeu. Sim, trata-se mesmo de uma situação política clichê dos tempos da ditadura: num pequeno apartamento quarto-e-sala, no Rio, convivem três militantes: Cristiana, o guerrilheiro urbano Santiago e um bailarino, sem nome, proibido de tirar o capuz. O que fazer com uma situação dessas? Já nas primeiras páginas o autor explode nossos preconceitos - ele não parte, como poderia dizer Nelson Rodrigues, para o "cretinismo da objetividade"; parte sim, e decidido, para a poesia.
O apartamento é chamado de "cabine", como a cabine de um trem viajando em zona contaminada; o bailarino tem uma obsessão por Nijinsky e Stravinsky, o que o faz contar histórias um pouco como aquelas de O Beijo da Mulher Aranha, e aos poucos arma-se uma teia mágica, sensual, enfeitiçante. A grande ousadia de Álvaro Caldas é ter optado pelo subjetivo e pelo simbólico para uma narrativa que poderia ser estupidamente realista. E com recursos literários para isso - linguagem trabalhadíssima e uma agilidade técnica que, sem que o leitor perceba exatamente onde aconteceu o "truque", o faz transitar da primeira para a terceira pessoas, do passado para o presente, do imaginário para o real. Com a suavidade de um bailarino e a precisão de um coreógrafo das palavras.
Balé da Utopia é um romance belo, vigoroso e delicado ao mesmo tempo, percorrido por um fio de erotismo sutilíssimo que pulsa e cresce até o orgasmo final. Nem amargo, nem nostálgico: um romance que se atreve a terminar com um orgasmo é pura vitalidade. E tem aquela outra qualidade das boas ficções: você às vezes o visualiza como uma peça teatral, outras como um filme, uma coreografia. O autor brinca com gêneros, referências, ritmos e linguagens - e por sobre todas essas habilidades paira a criação de um inesquecível personagem feminino, Cristiana.
Não conheço Álvaro Caldas, nem sei como seu livro foi recebido na época do lançamento. Talvez eu não estivesse no Brasil, mas não lembro de ter lido ou ouvido falar nada a respeito. Bem, por enquanto esse é o meu próprio livro brasileiro para 94. E o seu? Procure, insista. Claro, nas livrarias vão dizer quem, o quê, não, nunca ouvi falar. Mas ah, insista sim. Álvaro Caldas é um desses escritores raríssimos que ajudam a compreender melhor o Brasil. Se é que isso é possível.